Inimigos internos são o maior risco da UE mas não são “traidores” – Rui Moreira
O embaixador de Portugal na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Rui Moreira, disse hoje num Encontro Lusa no Porto que os inimigos internos são a maior ameaça à UE, mas não devem ser vistos como “traidores”.
“Parece-me que esse é o maior risco que nós corremos. Ou seja, se quisermos, é um pouco aquela imagem da quinta coluna, de termos dentro de nós, dentro dos nossos países, forças que têm legitimidade democrática, mais a mais, e que não concordam com aquilo que parecia ser mais ou menos consensual”, disse hoje Rui Moreira à Lusa.
O ex-presidente da Câmara do Porto falava após uma sessão dos Encontros Lusa que incluiu um debate com o tema Os Novos Tempos da (Des)Ordem Mundial – Desafios para Portugal, que decorreu hoje no Palacete Silva Monteiro, sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), e contou com a participação do ex-presidente da Assembleia da República Augusto Santos Silva e moderação da diretora de informação da Lusa, Luísa Meireles.
No final do debate, o ex-presidente da Câmara do Porto salientou que os opositores ao projeto europeu não devem ser vistos como “traidores”.
“Há pessoas que acreditam que o interesse legítimo do seu país não é propriamente disputar uma guerra com o senhor Putin [Presidente da Rússia], e há muito mais pessoas que entendem que neste momento a estrutura europeia tal como ela existe, nomeadamente pelas fronteiras estarem abertas, coloca problemas aos seus países que não existiriam se esses países saíssem da União Europeia (UE)”, referiu.
Para Rui Moreira, este é “um risco” numa altura em que a ordem internacional está confrontada “com um tempo tão diferente, em que tantas coisas estão a mudar”.
“Aquele que era o nosso aliado [Estados Unidos] neste momento já não é propriamente o nosso aliado, é o nosso fornecedor, em que muitas vezes tem interesse conjuntos connosco, mas muitas vezes não tem. É o momento mais perigoso para nós termos estas dúvidas internas”, apontou.
Durante o debate com Augusto Santos Silva, Rui Moreira salientou fatores que fomentam essas dúvidas, como a questão da desinformação e da sua disseminação através de “grandes multinacionais”.
Questionado sobre as possíveis saídas para o atual cenário internacional, o embaixador de Portugal na OCDE salientou “a necessidade soberana da Europa de ser autónoma na questão energética, não podendo depender do petróleo de Ormuz, e também não devendo depender do gás natural americano”.
“Eu acredito que o Estado Social só pode ser retomado na sua plenitude para agradar às pessoas se houver crescimento económico. O crescimento económico anémico da União Europeia, ao longo de tantos anos, também ele fomenta depois os extremismos”, considerou.
Já sobre se este caminho pode envolver um maior federalismo no seio da União Europeia, Rui Moreira rejeitou, por entender que “a Europa Federal foi condenada exatamente pelo alargamento a leste”.
“A partir do momento em que a Europa quis, muito por causa da unificação alemã, abrir a povos como os polacos, como os eslovacos, os países bálticos, a Hungria, a Eslovénia, a Croácia. A partir desse momento, o federalismo é impensável porque a própria cultura cívica das pessoas é diferente. Não quer dizer que a nossa seja melhor do que a deles”, afirmou.
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By Impala News / Lusa