Estado Islâmico tenta consolidar reduto na costa moçambicana com pregação e coerção – estudo
Um relatório divulgado pela organização ACLED conclui que o Estado Islâmico em Moçambique (EIM) está a tentar consolidar um reduto na costa de Cabo Delgado através de pregação, coerção e aproximação às comunidades locais.
“Os pregadores do EIM têm lembrado às pessoas o ‘perigo de ajudar os infiéis'” refere o estudo, assinado por Peter Bofin, analista sénior para a África austral da ACLED (Armed Conflict Location & Event Data), que sustenta que os insurgentes procuram conquistar legitimidade social numa faixa costeira entre os distritos de Mocímboa da Praia e Quissanga.
“O EIM está a desenvolver um enclave que se estende ao longo de mais de 100 quilómetros da costa de Cabo Delgado e 50 quilómetros para o interior”, refere o relatório, acrescentando que, nessa área, o grupo “goza de alguma liberdade de movimento, mantém a sua base principal e procura legitimidade junto da população”.
O analista acrescenta que a estratégia sofreu alterações significativas após 2021, quando a intervenção militar do Ruanda e da missão regional da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) impediu o avanço do grupo sobre centros populacionais.
Entretanto, os insurgentes reduziram os ataques contra civis em algumas zonas costeiras e reforçaram atividades como visitas a aldeias, contactos com líderes comunitários, sessões de pregação, compra de alimentos e controlo da circulação de pessoas.
O relatório sustenta que esta mudança não representa uma moderação ideológica ou militar, mas uma nova fase da insurgência destinada a criar uma base de apoio e consolidar controlo social e territorial.
“Os ataques do EIM contra civis levaram à fuga dos cidadãos e, sem população, o controlo territorial tem pouco valor”, refere o documento.
“Ao mudar de tática, o grupo revela elementos de uma agenda política: ambições territoriais e aspirações de afirmar o controlo com base nos princípios islâmicos”, acrescenta.
A província de Cabo Delgado, rica em gás natural, enfrenta uma insurgência armada desde 05 de outubro de 2017, quando ocorreram os primeiros ataques no distrito de Mocímboa da Praia, tendo provocado desde então, segundo a ACLED, mais de 6.600 mortos.
A ACLED considera que o grupo se tornou mais sectário e mais alinhado com a orientação ideológica do Estado Islâmico global, promovendo a aplicação da lei islâmica e rejeitando o Estado secular moçambicano.
Como exemplo, recorda que insurgentes visitaram uma mesquita em Mocímboa da Praia, em outubro de 2025, afirmando existirem “dois governos: um dos não crentes e outro dos muçulmanos”, apelando igualmente à rejeição da cooperação com as autoridades estatais.
O estudo diz que a nova abordagem incide sobretudo sobre comunidades costeiras predominantemente muçulmanas e que as mensagens religiosas do grupo são acompanhadas por fatores étnicos e políticos.
Segundo Peter Bofin, o movimento procura explorar perceções de marginalização histórica em algumas comunidades costeiras, transformando-as em apoio ou tolerância à insurgência.
O relatório alerta que a continuidade dos ataques e a incapacidade do Estado de restabelecer a sua autoridade em algumas zonas poderão contribuir para o enfraquecimento da legitimidade das instituições públicas: “A persistência do EIM em atacar civis sem uma resposta estatal eficaz irá minar ainda mais a legitimidade do Estado”.
A organização diz que a forte presença militar de proteção ao projeto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, pode gerar ressentimento entre comunidades que continuam expostas à violência insurgente.
“O risco que o projeto enfrenta é que o ressentimento que as pessoas sentem — causado pelo facto de o projeto gozar de maior segurança do que elas próprias — corroa a licença social das empresas para operar”, alerta.
A ACLED conclui que a insurgência não poderá ser derrotada apenas por meios militares, defendendo que o Estado deve recuperar a sua autoridade e legitimidade local, sobretudo nas áreas onde o grupo procura consolidar influência.
PVJ // APL
By Impala News / Lusa