Portugal é o segundo país da UE mais pessimista sobre a qualidade de vida
Os portugueses são o segundo povo da União Europeia mais pessimista quanto à evolução da qualidade de vida nos próximos cinco anos, com 39% a antever pioria. A contradição é que Portugal é também o país onde mais pessoas veem a UE como um lugar de estabilidade: 94%.
Os dados do Eurobarómetro de primavera, divulgados hoje pintam um retrato com dois rostos. O pessimismo dos portugueses quanto à evolução da sua qualidade de vida é dos mais elevados de toda a UE. Mas a confiança no projeto europeu é das mais sólidas. São duas realidades que coexistem no mesmo país, com o mesmo povo, no mesmo momento.
Segundo o Eurobarómetro realizado entre 9 de abril e 4 de maio, 39% dos portugueses anteveem que a sua qualidade de vida vai piorar nos próximos cinco anos, a segunda taxa mais elevada em toda a União Europeia, apenas ultrapassada pela França, onde 44% partilham esse receio. Outros 39% não esperam qualquer mudança.
O paradoxo português
O dado mais revelador não é o pessimismo em si, mas o que existe ao lado dele. Portugal é o país da UE onde a população mais considera que “a UE é um lugar de estabilidade num mundo conturbado”: 94%, contra 75% de média europeia. Ou seja, os portugueses desconfiam do futuro das suas próprias vidas mas confiam mais do que qualquer outro povo europeu na proteção que o bloco oferece.
Este aparente paradoxo tem uma leitura possível: os portugueses não estão pessimistas em relação à Europa, estão pessimistas em relação às condições concretas do dia a dia em Portugal. A diferença é relevante.
O que já piorou nos últimos 12 meses
O pessimismo quanto ao futuro é reforçado pela perceção do passado recente. Questionados sobre se a qualidade de vida piorou nos últimos 12 meses, 39% dos portugueses dizem que sim, contra apenas 27% na média europeia. Apenas 7% consideram que melhorou. Apesar disso, 74% dizem-se satisfeitos com a sua qualidade de vida atual, ainda que esta taxa fique abaixo da média europeia, que é de 83%.
O que falta para viver melhor
Quando perguntados o que mudaria a sua qualidade de vida, os portugueses são claros: 51% apontam a situação financeira e a capacidade de fazer face às despesas do dia a dia, a quarta percentagem mais elevada de toda a UE. A qualidade e acessibilidade dos cuidados de saúde surge empatada, também com 51%, seguida da segurança no emprego e condições de trabalho, com 38%.
Quanto ao que consideram mais importante para uma boa qualidade de vida, 61% indicam a saúde física e mental, 50% a qualidade e acessibilidade dos cuidados de saúde, 43% a segurança no emprego e outros 43% a segurança e qualidade alimentar.
Portugal e a UE: confiança acima da média
Em quase todos os indicadores de confiança no projeto europeu, Portugal fica acima da média comunitária. Noventa por cento consideram que Portugal beneficiou ao tornar-se membro da UE, a quarta taxa mais elevada. Noventa por cento defendem que o papel da UE na proteção dos cidadãos contra crises globais deve aumentar, contra 68% na média europeia. E 52% consideram que a qualidade de vida na UE é melhor do que nos Estados Unidos.
O principal benefício identificado pelos portugueses na adesão à UE é ter “uma voz mais forte no mundo”, apontado por 43%, seguido do contributo para o crescimento económico (40%) e das novas oportunidades de trabalho (31%).
O contexto do inquérito
Este Eurobarómetro foi realizado numa fase marcada pelo aumento do custo de vida, associado ao conflito no Médio Oriente, e pela incerteza geopolítica global. Em toda a Europa, 58% dos cidadãos dizem-se pessimistas quanto ao futuro do mundo, um aumento de 6% face ao Eurobarómetro de novembro de 2025. Em Portugal, essa taxa é de 55%.
O inquérito envolveu 26.421 europeus, com 1.031 portugueses entrevistados presencialmente.