Investigadores portugueses descobrem como tratar a perturbação obsessivo-compulsiva

Investigadores da Fundação Champalimaud identificaram, pela primeira vez, a rede de circuitos cerebrais que pode tornar o tratamento da perturbação obsessivo-compulsiva mais eficaz e personalizado. O estudo foi hoje publicado na revista científica Biological Psychiatry.

Investigadores portugueses descobrem como tratar a perturbação obsessivo-compulsiva

A perturbação obsessivo-compulsiva (POC) afeta milhões de pessoas em todo o mundo e, nas suas formas mais graves, pode ser completamente incapacitante: lavar as mãos dezenas de vezes por dia, verificar incessantemente se o fogão está desligado ou se a porta está fechada, num ciclo que consome horas e impede uma vida normal. Até agora, os tratamentos existentes funcionavam, mas de forma imprecisa. Uma equipa de investigadores da Fundação Champalimaud identificou, pela primeira vez, uma rede de circuitos cerebrais que pode permitir que os tratamentos da perturbação obsessivo-compulsiva sejam mais eficazes e personalizados.

O estudo, coordenado pelo investigador clínico Gonçalo Cotovio em colaboração com o Massachusetts General Hospital, nos EUA, foi hoje publicado na revista científica Biological Psychiatry.

O problema com o tratamento atual

O tratamento da POC recorre atualmente à Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr), uma técnica não invasiva e indolor que estimula regiões específicas do cérebro com campos magnéticos. O protocolo para a perturbação obsessivo-compulsiva exige mais tempo do que outros tratamentos, incluindo o procedimento que os técnicos designam de “provocação de sintomas”. No entanto, cada sessão demora hoje pouco mais de três minutos, em vez de quase 40 como sucedia anteriormente, o que veio facilitar muito a vida aos doentes.

O problema é que, mesmo com estes avanços, não havia certeza de que a área cerebral estimulada fosse realmente a que causava os sintomas. Era como tratar uma dor de cabeça massajando o pescoço: podia ajudar, mas não necessariamente pelo motivo certo.

A chave: lesões raras que revelam o mapa do cérebro

Para encontrar os circuitos responsáveis, a equipa da Fundação Champalimaud recorreu a uma abordagem engenhosa. Com base em casos raros em que a POC surgiu após uma lesão localizada no cérebro, como um acidente vascular cerebral ou um tumor, o investigador Gonçalo Cotovio e a equipa conseguiram identificar os circuitos cerebrais onde poderá residir a causa dos sintomas. Os investigadores realizaram uma pesquisa exaustiva da literatura publicada e encontraram imagens de lesões cerebrais de 40 pessoas que desenvolveram POC após uma lesão cerebral.

A conclusão foi reveladora: o que estas lesões tinham em comum não era a sua localização no cérebro, mas os circuitos neurais que conectavam entre si. A POC não reside num ponto, reside numa rede.

O que muda na prática

Com este mapa de circuitos identificado, os médicos passam a ter um guia muito mais preciso para orientar a estimulação magnética. Em vez de estimular regiões “médias” baseadas em estudos de grupo, poderão direcionar o tratamento para os circuitos específicos de cada doente.

“Isso significa que, em última análise, podemos utilizar a nossa rede de POC lesional como uma ferramenta para orientar o tratamento com neuromodulação, em vez de nos basearmos em locais médios”, afirmou Albino Oliveira-Maia, autor sénior do estudo.

Os investigadores estão agora a completar um estudo clínico que compara diretamente a eficácia da estimulação das regiões-alvo habituais com a da estimulação da rede recentemente identificada. O estudo é financiado pela Brain and Behaviour Research Foundation, um dos maiores financiadores não governamentais da investigação em saúde mental.

O que é a perturbação obsessivo-compulsiva

A POC é uma condição neuropsiquiátrica que se manifesta através de pensamentos intrusivos e repetitivos (obsessões) que geram ansiedade intensa, aliviada temporariamente por comportamentos repetitivos (compulsões). Nas formas mais graves, os doentes tornam-se incapazes de sair de casa, de trabalhar ou de manter relações. A maioria dos casos não tem causa conhecida, mas responde parcialmente à psicoterapia cognitivo-comportamental e a alguns medicamentos antidepressivos em doses elevadas. Quando estes tratamentos falham, a EMTr tem sido a alternativa mais promissora e agora, com esta descoberta, poderá tornar-se muito mais eficaz.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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