Milhões de novos satélites terão “consequências devastadoras para astronomia” – estudo
Um estudo hoje divulgado alerta para as “consequências devastadoras para a astronomia” que representa a colocação na órbita terrestre de mais de 1,7 milhões de novos satélites, incluindo os “extremamente brilhantes”, que estão a ser planeados por empresas.
O estudo, conduzido por um astrónomo do Observatório Europeu do Sul (OES), que descreve o trabalho num comunicado, é o primeiro a calcular a extensão do impacto de grandes, e brilhantes, constelações de satélites nas observações astronómicas, ao tornarem o céu noturno mais luminoso prejudicando a observação com telescópios de galáxias distantes, planetas extrassolares parecidos com a Terra ou asteroides potencialmente perigosos para a Terra.
O OES, organização astronómica da qual Portugal é membro, acrescenta a este efeito o de a poluição luminosa gerada por constelações de satélites muito brilhantes poder causar “impacto na saúde e no funcionamento da vida na Terra ao perturbar os relógios biológicos e os ecossistemas”.
Segundo o OES, grandes constelações de satélites têm também “impactos diretos na qualidade do ar”, devido aos numerosos lançamentos que são necessários para os enviar e manter em órbita e à poluição provocada pela queima quando reentram na atmosfera terrestre no fim de vida.
Atualmente, existem mais de 14 mil satélites ativos na órbita da Terra. O número de satélites em órbita ascende aos 32 mil se forem incluídos os satélites inativos ou o que resta deles.
O estudo hoje divulgado, da autoria do astrónomo belga Olivier Hainaut, refere que a empresa norte-americana SpaceX, do magnata Elon Musk, pretende lançar um milhão de novos satélites, destinados a servir centros de dados no espaço, que “irão alterar significativamente a aparência do céu”.
De acordo com os cálculos de Olivier Hainaut, centenas destes satélites, e por vezes milhares, serão visíveis no céu noturno, em número semelhante às estrelas que são vistas a olho nu em boas condições de observação.
Uma outra empresa norte-americana citada no estudo, a Reflect Orbital, quer lançar para o espaço 50 mil satélites até 2035.
Os satélites, cujo protótipo a empresa pretende colocar em órbita este ano, depois de obtida a devida aprovação do regulador, refletem a luz do Sol para a Terra durante a noite, com os seus feixes luminosos a alcançarem pelo menos cinco quilómetros na superfície do planeta.
Hainaut estima que a constelação de satélites inteira, a mais brilhante alguma vez em órbita da Terra, irá fazer com que o céu noturno se apresente com centenas de satélites muito brilhantes visíveis a olho nu.
Visto a partir do feixe luminoso refletido, cada satélite será quatro vezes mais brilhante do que a Lua cheia e, mesmo se nenhum dos satélites apontar o feixe luminoso diretamente a um telescópio, cada um será tão brilhante como Vénus.
O estudo, a publicar na revista científica Astronomy & Astrophysics, realça que numa cidade com poluição luminosa como Munique, na Alemanha, centenas destes satélites serão as únicas “estrelas” visíveis no céu noturno.
Em geral, o céu noturno será três a quatro vezes mais luminoso com a totalidade dos 50 mil satélites da Reflect Orbital.
“Satélites iluminados pelo Sol são muito mais brilhantes do que galáxias distantes. Quando um satélite atravessa o que observamos, faz um traço brilhante na nossa imagem, alterando o que está por detrás”, salienta Olivier Hainaut, citado no comunicado do OES.
Para estimar o impacto deste e de outros efeitos da constelação de satélites nas observações astronómicas, Hainaut simulou as posições, o movimento e o brilho das constelações de satélites atuais e futuras, tendo por base observações feitas com o telescópios VLT, do OES, e Vera C. Rubin, ambos no Chile.
Para o autor do estudo, não mais do que 100 mil satélites com luminosidade fraca, abaixo da visibilidade a olho nu, deveriam orbitar a Terra para garantir a observação do céu noturno com telescópios modernos.
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By Impala News / Lusa