Por que são as cidades mais quentes nas ondas de calor e o que devia ser feito para evitá-lo
O centro de Lisboa pode estar 8 graus mais quente do que as zonas rurais em redor durante uma onda de calor. Não é azar. É física. O fenómeno chama-se ilha de calor urbana e a ciência já sabe como resolvê-lo. Algumas cidades já estão a fazê-lo. Portugal ainda não.
As ilhas de calor urbanas explicam por que razão, numa semana de aviso vermelho por calor em Lisboa e Setúbal, os termómetros no centro das cidades chegam a leituras que as estações meteorológicas rurais próximas não registam. A Europa continua a bater recordes de mortalidade associada ao calor extremo, e perceber este fenómeno é perceber por que razão as cidades são o epicentro do problema e também da solução.
Como funcionam as ilhas de calor urbanas
O mecanismo é simples na sua lógica e devastador nas suas consequências. O asfalto, o betão e os edifícios absorvem radiação solar durante o dia e libertam-na lentamente durante a noite, impedindo que a temperatura desça. Segundo revisão científica publicada em 2025 na revista Discover Cities da Springer Nature, as cidades estão entre 5 e 9 graus mais quentes do que as áreas rurais envolventes, e este diferencial agrava-se nas ondas de calor.
Nas zonas rurais, a vegetação regula a temperatura por evapotranspiração: absorve radiação, mas liberta água que arrefece o ar. Cidade com pouca vegetação perde este mecanismo. A geometria urbana agrava ainda mais o problema: os edifícios criam cânions – desfiladeiros – que aprisionam o calor e bloqueiam o vento, e a radiação reflete entre superfícies antes de conseguir escapar para a atmosfera.
O ar condicionado é particularmente perverso neste ciclo. Arrefece os interiores enquanto aquece ainda mais os exteriores, aumentando o consumo de energia e as emissões que alimentam o aquecimento global. Segundo estudo de março de 2026 publicado na ScienceDirect, o futuro da mitigação das ilhas de calor passará por modelos híbridos que integram infraestrutura verde, materiais refletores e designs adaptativos com inteligência artificial.
Com ondas de calor como a atual a tornarem-se mais frequentes e intensas e o calor húmido perigoso a mais do que duplicar desde 1970, o efeito de ilha de calor deixou de ser apenas um incómodo. É risco de saúde pública, especialmente para idosos, crianças e pessoas com doenças crónicas.
Quem são as populações mais vulneráveis
Uma revisão publicada em fevereiro de 2026 na revista Climate, usando Milão como caso de estudo, confirmou correlação espacial clara entre a intensidade das ilhas de calor e a concentração de grupos vulneráveis: crianças dos 0 aos 5 anos e idosos com 65 ou mais anos. As zonas com ilhas de calor mais intensas tendem a ser também as zonas com populações mais frágeis e menor acesso a arrefecimento.
O Stockholm Environment Institute confirmou, em fevereiro de 2026, que os efeitos das ilhas de calor urbanas continuarão a agravar-se com o aquecimento climático, mas que ações direcionadas podem reduzir significativamente os impactos.
Cidades que já estão a resolver o problema
Várias cidades encontraram abordagens eficazes com resultados mensuráveis.
Medellín, Colômbia • Criou rede de cerca de 30 corredores verdes interligados, com árvores, palmeiras, bambu e plantas tropicais ao longo de passeios, parques e eixos de tráfego intenso. O resultado foi descida mensurável de temperatura nessas zonas e um modelo que cidades de quatro continentes já estão a replicar.
Singapura • Apostou em corredores de vento, redes de passagens entre edifícios que maximizam os fluxos naturais de ar e minimizam o calor retido. Paralelamente, pintou edifícios e pavimentos com tinta refletora. Segundo estudo publicado em Sustainable Cities and Societies, o ar numa zona com este revestimento foi medido como 2 graus Celsius mais fresco.
Paris, França • Transformou mais de 300 ruas escolares em espaços com árvores e jardins, removeu 50 mil lugares de estacionamento para criar áreas verdes e plantou 170 mil árvores. Entre 2005 e 2023, reduziu significativamente as emissões de poluentes urbanos.
Roterdão, Países Baixos • Lançou a iniciativa Rotterdam Rooftop Walk, com o objetivo de cobrir de vegetação mais de 900 mil metros quadrados de telhados. Tetos verdes podem reduzir a temperatura ambiente numa cidade até 15 graus Celsius, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA.
Estugarda, Alemanha • Criou corredores de ventilação a partir das montanhas circundantes, permitindo que ar fresco penetre no centro urbano. Modelo de urbanismo climático de referência para cidades europeias com topografia semelhante.
Seul, Coreia do Sul • Restaurou o rio Cheonggyecheon, que esteve coberto por autoestrada elevada durante décadas. A recuperação do curso de água criou corredor de frescura permanente no centro da cidade.
O que as melhores cidades têm em comum
Em novembro de 2025, durante a Cimeira Mundial de Presidentes de Câmara C40 no Rio de Janeiro, 33 cidades representando mais de 145 milhões de pessoas, incluindo Londres, Paris, Singapura, Boston e Buenos Aires, comprometeram-se com ações urgentes para combater o calor extremo até 2030, no âmbito do Cool Cities Accelerator.
O que estas cidades partilham é visão que não espera pelas ondas de calor para agir. A curto prazo, o objetivo é proteger as populações vulneráveis durante os episódios extremos. A longo prazo, é redesenhar as cidades para um planeta mais quente.
Portugal: o diagnóstico honesto
As cidades portuguesas estão, na maioria dos casos, significativamente atrasadas face a estas práticas. Os planos municipais de ação climática deviam estar prontos em 2024 por imposição legal, mas mais de uma centena de municípios ainda não os apresentou.
Porto tem Plano Municipal de Ação Climática que inclui tetos verdes, estrutura ecológica e metas de neutralidade carbónica para 2030. Lisboa tem planos de adaptação climática no âmbito da Área Metropolitana de Lisboa, mas a integração nos planos municipais varia de município para município.
A maioria das cidades médias e pequenas do país não tem plano formal aprovado.
O problema não é de conhecimento nem de recursos. Algumas das soluções mais eficazes são de custo relativamente baixo, como a arborização de ruas ou a pintura de superfícies com materiais refletores. O obstáculo é de prioridade política e de velocidade de decisão.
Com o El Niño a regressar em 2026 e a ameaçar novos recordes de calor e o aviso laranja a estender-se a todo o continente, a questão já não é se Portugal precisa de agir. É quantas ondas de calor são precisas para que a ação aconteça.