A sua casa aquece mais do que a rua? Saiba porquê e o que fazer para evitá-lo
Durante uma onda de calor como a desta semana, a sua casa pode estar vários graus mais quente do que a rua. Não é coincidência. Há razões físicas concretas para isso — e soluções eficazes que não exigem ar condicionado.
A onda de calor que atravessa Portugal esta semana está a empurrar as temperaturas para valores extremos. Mas há um fenómeno que muita gente nota sem conseguir explicar: por que razão a casa, especialmente os andares superiores ou as divisões viradas a sul, parece ainda mais quente do que o exterior? A resposta está na física dos materiais e no modo como o calor se acumula nos edifícios.
Por que aquece tanto a sua casa
O betão, o tijolo e as telhas absorvem calor durante o dia e libertam-no lentamente durante a noite. Ao contrário do ar, que arrefece rapidamente quando o sol se põe, as paredes e os tetos de uma casa retêm energia térmica durante horas. O resultado é que, ao fim do dia, o interior de uma casa pode estar mais quente do que o exterior, mesmo que a temperatura lá fora já tenha descido.
Os telhados são o ponto de entrada mais crítico. Numa tarde de 40 graus, a superfície de um telhado escuro pode atingir temperaturas superiores a 70 graus. Esse calor transmite-se para o andar de baixo e acumula-se. As janelas a sul e poente amplificam o problema: o ângulo do sol da tarde entra diretamente, aquecendo o chão e os móveis que por sua vez libertam calor para o ar interior.
O ar condicionado agrava ainda mais o problema a longo prazo, como se explica no artigo sobre as ilhas de calor nas cidades: arrefece o interior, mas liberta calor para o exterior, aquecendo ainda mais o ambiente em redor. E o calor húmido é particularmente perigoso porque impede a transpiração de arrefecer o corpo, tornando o interior de casas mal ventiladas num risco real para a saúde.
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O que fazer para manter a casa fresca
Fechar de dia, abrir de noite. A regra mais eficaz e menos seguida. Durante o dia, manter as janelas e portadas fechadas nas divisões expostas ao sol. De noite, quando a temperatura exterior desce abaixo da do interior, abrir tudo e criar circulação de ar entre divisões opostas da casa. Uma ventoinha na janela a empurrar o ar quente para fora é mais eficaz do que uma ventoinha no centro da divisão a mover ar quente.
Bloquear a entrada de luz solar. Estores, persianas e cortinas espessas instaladas no exterior das janelas são muito mais eficazes do que as instaladas no interior. O calor que entra pela janela como luz já aqueceu o espaço antes de ser bloqueado por uma cortina interior. No exterior, o calor é refletido antes de entrar.
Arrefecer o corpo, não o espaço. Um pano húmido no pescoço, pulsos mergulhados em água fria e boa hidratação ao longo do dia são mais eficazes do que tentar arrefecer uma divisão inteira com uma ventoinha. O objetivo é reduzir a temperatura corporal, não a temperatura do ar.
Evitar fontes de calor internas. O forno, o fogão, as lâmpadas de incandescência e os aparelhos eletrónicos em standby libertam calor. Numa semana de onda de calor, cozinhar com opções frias, usar lâmpadas LED e desligar os aparelhos da tomada reduz significativamente o calor produzido dentro de casa.
Plantas e água no exterior. Uma planta junto à janela ou numa varanda cria microclima mais fresco por evapotranspiração, o mesmo mecanismo que as árvores usam para arrefecer as cidades. Um recipiente com água no terraço ou varanda tem efeito semelhante, embora mais limitado.
Dormir com menos roupa na cama. O truque para dormir melhor no calor passa por usar lençóis de algodão ou linho, material que respira e absorve a transpiração, e por arrefecer o quarto no início da noite com ventilação cruzada antes de fechar para dormir.
O que está a tornar estes verões mais intensos
As ondas de calor não são fenómenos novos em Portugal, mas estão a tornar-se mais frequentes e mais intensas. As alterações climáticas tornaram as ondas de calor em Portugal 40 vezes mais prováveis do que seriam sem a atividade humana, e a Terra está a reter cada vez mais calor segundo os modelos climáticos mais recentes. O El Niño que se aproxima ameaça agravar ainda mais a situação nos próximos meses.
As consequências do calor excessivo para a saúde são reais e sérias, e as alterações climáticas estão a triplicar as mortes associadas ao calor. A boa notícia é que medidas simples, gratuitas e imediatas podem fazer uma diferença real na temperatura sentida dentro de casa. Começar por fechar as portadas de manhã cedo é o primeiro passo.