Aranha venenosa descoberta no Porto e pela primeira vez na Península Ibérica

Aranha venenosa descoberta no Porto pela primeira vez na Península Ibérica. A aranha-reclusa-chilena, Loxosceles laeta, foi identificada por investigadores da Universidade do Porto. Os especialistas afastam o alarme mas alertam para a gravidade da mordedura.

Aranha venenosa descoberta no Porto e pela primeira vez na Península Ibérica

A aranha venenosa descoberta no Porto é a aranha-reclusa-chilena, cientificamente conhecida como Loxosceles laeta. É o primeiro registo confirmado desta espécie em Portugal e em toda a Península Ibérica. A descoberta, feita por investigadores do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, foi publicada em estudo datado de maio de 2026 e divulgada esta semana pela Euronews.

Os exemplares encontrados eram dois machos, capturados junto ao Campo dos Mártires da Pátria, no Porto. O primeiro foi apanhado a 10 de setembro de 2025 e o segundo a 10 de janeiro de 2026. Foram ainda recolhidas três fêmeas do género Loxosceles que os investigadores não conseguiram identificar com certeza ao nível da espécie, mas que consideram provável serem também Loxosceles laeta.

“Mordida pode causar danos consideráveis na pele, resultando frequentemente em lesões cutâneas necróticas” (José Manuel Grosso-Silva)

Venenosa mas tímida

José Manuel Grosso-Silva, entomólogo do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e um dos autores do estudo, foi claro em declarações à Euronews. “A probabilidade de as pessoas se cruzarem com esta espécie ou serem mordidas por ela é reduzida.” Trata-se de espécie tímida, sobretudo noturna, que prefere locais escuros e pouco expostos, como caves, armazéns e espaços fechados, e que raramente entra em contacto com humanos. Ainda assim, a mordedura não é para desvalorizar.

Segundo o estudo dos biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva, “a sua mordida pode causar danos consideráveis na pele, resultando frequentemente em lesões cutâneas necróticas”. Em casos mais graves, o veneno pode provocar complicações sistémicas. Já existia em Portugal outra aranha da mesma família, a Loxosceles rufescens, conhecida como aranha-reclusa-do-mediterrâneo, presente há várias décadas. Portugal tinha aliás registado em 2023 um caso de loxoscelismo, a síndrome provocada pelo veneno destas aranhas, associado precisamente à Loxosceles rufescens. A jovem operada de urgência após ser picada por aranha na perna é exemplo do potencial de gravidade destas situações.

Como a aranha venenosa chegou ao Porto

A aranha-reclusa-chilena é nativa da região ocidental da América do Sul, habitualmente encontrada no Chile, Argentina, Peru e Bolívia. Segundo os investigadores, “apresenta ampla distribuição e parece ser capaz de estabelecer populações longe da sua área de distribuição original, sobretudo devido às atividades humanas”. A teoria mais provável é que a espécie tenha chegado através do comércio internacional, provavelmente em contentores ou mercadorias.

Não se sabe ainda se a espécie existe apenas no Porto ou se já se encontra mais dispersa pelo território. A dificuldade é que a Loxosceles laeta pode ser confundida com a aranha-reclusa-do-mediterrâneo, já estabelecida em Portugal. “É possível que existam registos fotográficos identificados como sendo desta última que, na realidade, correspondam à nova espécie”, admite Grosso-Silva.

O que fazer se encontrar uma aranha suspeita

Dada a semelhança entre as espécies do género Loxosceles, os investigadores defendem vigilância, não alarmismo. Em casa, medidas básicas de prevenção, como verificar sapatos e roupa que tenham estado em caves ou espaços escuros, reduzem o risco de contacto acidental. Em caso de mordedura suspeita, a recomendação é procurar assistência médica de imediato, uma vez que as lesões necróticas podem evoluir rapidamente. Existem truques simples para afastar aranhas de casa que podem ajudar.

Nem todo o veneno, no entanto, é mau. O de algumas aranhas tem aliás sido estudado pela medicina com resultados surpreendentes. É com veneno de aranha que alguns investigadores estão a tratar ataques cardíacos, um dos paradoxos mais fascinantes da biologia moderna.

Luís Martins; WiN
Imagem redes sociais

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