A Literatura ganhou um palco num festival que se faz sobretudo de música
A literatura ganhou este ano um palco no 18.º festival de música Alive, que começou hoje em Oeiras, com o escritor Valter Hugo Mãe a salientar a importância de “trazer o livro para onde estão as pessoas”.
O espaço foi pouco para receber todos os que assistiram à conversa, entre a radialista Ana Markl e o escritor Valter Hugo Mãe, que estreou hoje o Palco Literário, a grande novidade no recinto do festival NOS Alive, que decorre até sábado no Passeio Marítimo de Algés, em Oeiras.
No final da conversa, o escritor, que tem sido “plateia de muitos festivais”, disse à Lusa que “trazer o livro para onde estão as pessoas, vale sempre a pena”.
“Acredito muito no livro, no livro como instrumento de empoderamento, potenciação de pensamento e como produção de humanidade. Por isso, onde estão as pessoas produzamos humanidade”, afirmou.
Valter Hugo Mãe, com 30 anos de carreira literária, editou em junho “O Século dos Imbecis” e partilhou que “tem sido muito gratificante nas apresentações” da obra “encontrar espaços muito cheios”.
“Nunca saberia o que esperar de um festival de música, mas tem sido assim e é muito bonito ver que as pessoas ainda se importam com o que se escreve, com o que se pensa. Fico muito honrado, muito grato, muito feliz por estar aqui”, disse.
As cadeiras ficaram todas ocupadas e muitos acabaram por assistir de pé a uma conversa na qual a música, e a relação do autor com a mesma, foi um dos temas principais.
O autor partilhou, por exemplo, que o cantor australiano Nick Cave, um dos destaques hoje no palco principal com os seus The Bad Seeds, é um dos seus “grandes heróis na música desde há muitos anos”. “E acho que é hoje talvez o grande performer musical do mundo, não saio daqui sem vê-lo ao princípio ao fim”, disse à Lusa.
Várias pessoas aproveitaram para comprar livros do autor de “A máquina de fazer espanhóis” e “O filho de mil homens”, que realizou uma sessão de autógrafos no local.
Nilson Perboni foi uma das pessoas que assistiu à conversa e no final esperou na fila com dois livros na mão, um para ele e outro para uma amiga.
Encontrar num festival de música um palco dedicado à literatura foi algo que achou “muito interessante”.
“Há uma ligação muito forte entre música e literatura, dois mundos que conversam muito. Muitos artistas trazem muitas influências da literatura, e da mesma forma a música influencia muito os escritores”, referiu.
Com bilhete para os três dias de festival, admite voltar a parar no Palco Literário na sexta-feira e no sábado.
Hoje quer sobretudo assistir aos concertos de Nick Cave & The Bad Seeds e dos Twenty One Pilots, a banda que levou Sara Afonso a escolher estar hoje no festival.
“Estar aqui hoje foi uma prenda para o meu namorado, mas acabou por ser uma prenda para mim quando vi que abriu o Palco Literário, combinação dos dois mundos. Adoro música e adoro ler”, contou à Lusa.
Sara Afonso partilhou que tinha acabado de ler há pouco tempo “A máquina de fazer espanhóis” quando soube que Valter Hugo Mãe iria fazer parte do cartaz do NOS Alive.
“Senti que foi uma coincidência incrível e devem continuar, porque a Cultura é feita pela música, pelos livros”, referiu.
Inicialmente pensou trazer “A máquina de fazer espanhóis” para o festival, mas como não sabia se conseguiria aceder ao autor, acabou por comprar outro livro para ser autografado.
Também leitora de Valter Hugo Mãe, Eduarda Leal aproveitou para juntar mais um livro ao autor à coleção.
Quando ao Palco Literário, achou uma “ideia extraordinária”, que “vem acrescentar ao festival mais cultura”.
“É interessante as pessoas identificarem-se também com os autores que vêm aqui. Também para os mais novos, é interessante vir a um festival e encontrar um lugar com livros e encontros com autores. Para se habituarem a ler, porque sabemos que leem pouco, infelizmente. É de louvar esta experiência. Gostei muito. Foi uma grande surpresa”, partilhou com a Lusa.
Haver nomes de autores de livros no cartaz “foi mais um motivo” para decidir estar no festival. “Fiquei muito feliz de poder estar com os autores de forma mais direta”, disse.
Do cartaz musical não destaca ninguém em especial, mas sim “a experiência no geral, os vários palcos”, especialmente artistas que nunca ouviu, visto gosta “da experiência de descobrir”, sobretudo ‘os mais pequenos’.
Mais de 120 artistas, bandas e autores apresentam-se entre hoje e sábado no Alive, cujo cartaz inclui Twenty One Pilots, Nick Cave, Foo Fighters e Buraka Som Sistema.
As atuações distribuem-se por oito palcos.
*** Por Joana Ramos Simões (texto) e Pedro Lapinha (vídeo) e José Sena Goulão (foto), da agência Lusa ***
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By Impala News / Lusa