Wanda Stuart Regressa ao local onde se estreou como atriz e deixa apelo: “Não se esqueçam de mim”

Com 58 anos de vida e mais de 30 de carreira, a artista iniciou um projeto especial no Teatro Variedades. Irreverente por natureza, nunca teve medo de se expressar e confessa lidar bem com as críticas. Garante que tem muito para dar e que o desafio a mantém viva.

Estamos no Variedades, onde se estreou como atriz. Que memórias tem?

Eu já cantava nessa altura, mas nunca tinha feito teatro profissional. O João Baião estava a montar um espetáculo com a Maria Rueff e eu atuava nos bares de Lisboa. Eles estavam à procura de espaços para poderem apresentar-se e eu levei-os onde eu atuava. Como forma de retribuir, o Baião sugeriu-me ao Filipe La Féria, que estava a fazer audições para a peça Maldita Cocaína, e eu vim fazer a audição. Enquanto não estreou a peça, fizemos neste espaço o programa Grande Noite, da RTP1.

Um programa que foi um sucesso.

Foi um dos maiores sucessos até hoje, porque trazia muitos artistas consagrados. Todas as semanas tínhamos convidados, além do elenco fixo. Mas também tornou conhecida muita gente, como o Baião, o Joaquim Monchique, eu própria, e outros nomes que apareceram nestas e noutras produções da RTP. A representação foi uma paixão que surgiu do nada, que ainda hoje se mantém e por isso faço vida disto. Mas as pessoas nem fazem ideia de que comecei a cantar com bandas de rock. 

Já era irreverente?

Sempre fez parte de mim. Quando vim fazer as audições para o La Féria, tinha 26 ou 27 anos. Era uma miúda e queria muito fazer coisas, estava sempre pronta para fazer tudo, e isso deu-me muita estaleca. Retornar agora ao Variedades, com o espetáculo Variedades (…Como Uma Ópera Bufa, Erótica e Satírica), que homenageia não só a Grande Noite mas toda a história deste teatro, que já celebra 100 anos, deixa-me mesmo muito feliz. Falamos da história de Lisboa, de Portugal, da Guerra Mundial e enquadramo-la no seu contexto histórico. Para mim, é um privilégio. 

E da sua personagem, o que pode revelar?

Eu faço uma costureira, que faz parte mesmo da estrutura do teatro, por isso acha que é mais do que os outros. Porque já trabalhou, vestiu os atores todos, mas na verdade aquilo é só uma vaidade parva. Eles são dez amigos que se amam profundamente, apesar das diferenças. Quando o amor é incondicional, aceitamos as pessoas com os seus defeitos. Costumo dizer que, se só fosse gostar de pessoas que não têm defeitos, nem de mim gostava [risos]. 

Faz refletir sobre as interações humanas?

Claro, é isso que este espetáculo também nos traz. A amizade incondicional, a verdadeira tolerância, que hoje em dia tanto se fala, mas que não é muito praticada. Nesta peça provamos que é possível ser-se amigo de uma pessoa que pensa de maneira diferente de nós. 

A Wanda sempre foi muito diferente, mesmo a nível de imagem. Nos anos 90, quando apareceu, não deve ter sido fácil numa sociedade mais conservadora…

Era um choque! Agora já não, é muito comum as pessoas serem diferentes. Mas acho que só devemos brincar com o nosso exterior se houver uma justificação interna. 

No seu caso, qual é a justificação? 

Sempre gostei muito de brincar com o meu cabelo. Antes de o pintar, fazia cortes doidos. Rapava de um lado, deixava comprido do outro, fazia desenhos… Isto já nos anos 80.

Deve ter sido necessária coragem… 

Com 15 anos já fazia isso, já gozavam comigo na rua. E depois, quando vim para o teatro, pintei o cabelo de vermelho, para fazer uma personagem. Havia todo um campo de cores para explorar, até prateado usei. Mas depois parei no azul, porque gostei imenso. Há dois anos, houve uma marca que me desafiou a mudar para loira. Não é que não ficasse bem, mas olhava para o espelho… 

E não era a Wanda que lá estava…

Não me sentia eu. Se calhar, isto não faz sentido para mais ninguém, só para mim, mas é comigo que eu vivo. Quando voltei a ter o cabelo azul e olhei ao espelho, ganhei um brilho nos olhos. 

Sente-se em casa no palco? 

Sim, o teatro possibilita-nos falhar, experimentar, perceber se está a ter graça, se não tem. Quando vou para o palco, já não vou tão nervosa como se fosse fazer um espetáculo em que não tive tempo para ensaiar. Fico mesmo muito nervosa antes de qualquer espetáculo. 

É engraçado dizer isso, porque o público acha-a muito segura. É uma capa? 

Não é uma capa, porque sou segura quando vou para o palco, é só uma outra faceta minha. Eu luto contra a minha insegurança. Qualquer atleta, quando vai para uma competição, tem de se convencer que vai para ganhar. Eu também vejo o teatro assim. 

Mas foi melhorando com o tempo?

Ao contrário do que possam pensar, conforme os anos vão passando, as dificuldades também são outras. Porque já não tenho a mesma energia e o mesmo físico que tinha quando comecei. Já tenho quase 60 anos, portanto, às vezes penso: “Calma, Wanda, estás com força, mas isto é todos os dias, portanto, calma lá”. Tenho de saber dosear, e também se aprende.

A responsabilidade também é outra?

Habituei mal o público a determinada maneira de estar. E depois, se não fizer o que esperam, ou estranham ou começo a achar que já não sou capaz. Não quero nunca desiludir o público, daí o nervosismo ser cada vez maior. 

Quem é a Wanda quando não está sob os holofotes? 

Supercalma, muito caseira. Quando era mais nova, não me apanhavam em casa, queria era estar na rua. A idade traz-nos isso, outra serenidade, e também já vivi tanto… Não é que não queira viver mais, porque quero, mas as prioridades mudam. Agora já tenho outros prazeres. Gosto de ver um bom filme, ouvir música, estar com amigos. 

Já não é a “rainha da noite” [risos]?

Fui eleita a rainha da noite de Lisboa não sei quantas vezes. Tenho um álbum que se chama Animais Noturnos. Parece que foi o fechar de um ciclo, porque entretanto engravidei. Costumo dizer, em brincadeira, que passei de inaugurações de discotecas para aberturas de parques infantis. A minha vida mudou radicalmente.

Leia a entrevista na íntegra na NOVA GENTE que já está nas bancas!

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Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Zito Colaço; Styling: Nuno Garcez; Cabelos: Hair Chiado

Notícia www.novagente.pt

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