Isabel Angelino “Gostava de ser lembrada como uma boa pessoa”

Aos 59 anos, diz que nunca se deslumbrou com a televisão porque ela não é um fim em si mesma, mas sim uma forma de chegar às pessoas. Há 35 anos na RTP, continua a acordar com vontade de conhecer novas histórias. Diz-se tranquila e em paz, ao lado de Manuel Gião, o companheiro que trata por marido sem serem casados. E nem vivem juntos. “Para nós faz sentido assim”, garante.

São 35 anos de RTP, dezenas de programas, milhares de horas em direto. Quando olhas para trás, consegues perceber onde passaram estes anos todos?

É curioso, porque olho para trás e parece que foi ontem. Foram 35 anos muito intensos, cheios de projetos diferentes, pessoas extraordinárias e desafios constantes. Sinto-me uma privilegiada por ter feito sempre aquilo de que gosto.

Era expectável que assim fosse?

Completamente impensável [risos]. Eu era muito tímida. Nunca imaginei que um dia pudesse viver da televisão ou falar diariamente para milhares de pessoas. Se alguém me dissesse isso quando era criança, eu diria que era impossível.

Quem era essa miúda?

Nasci no Barreiro, mas cresci na Baixa da Banheira. Venho de uma família de classe média-baixa, muito trabalhadora, onde nunca sobrou nada, mas também nunca faltou o essencial. Tive uma infância muito feliz.

O sonho ainda não era a televisão.

Não. O meu grande sonho era cantar. Passava horas a ouvir os discos dos festivais da canção. Lembro-me perfeitamente do presente de que mais gostei na infância: um gira-discos com gravador de cassetes e um microfone incorporado. Punha os discos a tocar, cantava por cima deles e gravava a minha própria voz. Era a minha versão do karaoke muito antes de existirem karaokes.

E a televisão, como surge?

Completamente por acaso. Trabalhava na papelaria de um primo meu quando vi, na TV Guia, um anúncio da RTP a procurar novos locutores de continuidade. Pensei apenas: “Porque não?” Não tinha nada a perder. Candidatei-me sem imaginar que aquela decisão ia mudar completamente a minha vida.

E muda mesmo.

Muda tudo. Ainda hoje acho extraordinário pensar que uma decisão tomada quase por impulso acabou por definir todo o meu percurso profissional.

“A televisão em si não interessa para nada”

Ao longo destes 35 anos fizeste dezenas de programas. Mas há um denominador comum em quase todos eles: as pessoas.

É verdade. Aquilo de que eu mais gosto é de programas de rua, sobretudo em direto. Gosto desse contacto imediato, da surpresa, de nunca saber exatamente quem vou encontrar ou o que me vão contar.

Mais do que apresentar, gostas de ouvir.

Muito. Gosto de pessoas. Gosto de escutar as pessoas. Gosto de descobrir as suas histórias de vida. Acho que todos têm qualquer coisa para nos ensinar. É isso que mais me entusiasma na televisão. A televisão em si não interessa para nada. Nem fama, nem popularidade. Só me interessa como forma de conhecer pessoas. Não é um fim em si mesma, é um meio para chegar onde quero.

É isso que procuras quando fazes uma reportagem.

Sempre. Claro que mostramos monumentos, tradições ou gastronomia. Mas aquilo que me interessa verdadeiramente são as histórias humanas. São essas histórias que fazem com que o público se identifique.

Nunca foste uma apresentadora distante.

Nunca consegui ser. Gosto de abraçar as pessoas, de lhes pegar na mão, de conversar sem pressas. Sobretudo com os mais velhos. Há tantas histórias que correm o risco de desaparecer se ninguém as ouvir [pausa]. Sempre senti que a televisão também podia servir para lhes dar voz. A televisão não é sobre nós, é sobre as pessoas para quem trabalhamos.

Foste encontrando um bocadinho de Portugal em cada pessoa que entrevistaste.

Sem dúvida. E talvez tenha aprendido tanto ou mais com elas do que elas comigo. Essa é uma das maiores riquezas que a televisão me deu.

Texto: NUNO AZINHEIRA; Fotos: ZITO COLAÇO e Arquivo Impala. 

Notícia www.novagente.pt

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