Guineenses em Portugal exigem que CPLP intervenha e aplique “sanções a golpistas”
Algumas dezenas de guineenses em Portugal manifestaram-se hoje para exigir a intervenção da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na libertação do líder da oposição da Guiné-Bissau, bem como na aplicação de “sanções contra os golpistas”.
“Estamos aqui para exigir a intervenção da CPLP para a libertação de Domingos Simões Pereira, que é presidente da Assembleia Nacional Popular”, declarou à Lusa o ativista político Sumaila Jaló, acrescentando que os guineenses também exigem a aplicação de sanções, que consideram uma forma de a organização se redimir dos “erros graves”.
Segundo o ativista, a CPLP, que assinala hoje 30 anos, “tem sido cúmplice da própria ditadura” no país lusófono.
Na manifestação, que ocorreu em frente à sede da CPLP, em Lisboa, estavam cerca de 30 cidadãos guineenses, empunhando cartazes que diziam “abaixo sissoquismo [referência ao ex-presidente Sissoco Embaló], fora golpistas”, “vozes guineenses importam” e “liberdade aos presos”.
No início do protesto, os cidadãos guineenses fizeram um minuto de silêncio em memória ao ativista Vigário Luís Balanta, que foi encontrado morto num lugar ermo nos subúrbios de Nhacra, a 30 quilómetros da capital, Bissau.
“O regime quer obrigar-nos a esquecer o Vigário. O assassinato do Vigário deu-se numa circunstância em que está à frente de um amplo e diverso movimento contra a ditadura na própria Guiné-Bissau”, referiu o ativista, acusando “a ditadura sissoquista, hoje camuflada de alto comando militar” pelo crime.
O Governo da Guiné-Bissau quer “silenciar a memória do assassinato” de Vigário e as suas reivindicações, segundo Sumaila Jaló.
O ativista sublinhou também a importância do respeito pelo Estado de direito e pelas imunidades parlamentares, manifestando particular preocupação com o impacto da detenção de Simões Pereira na estabilidade institucional da Guiné-Bissau.
Para Sumaila Jaló, a tomada de posição da comunidade lusófona é insuficiente, defendendo que se deve ir mais longe e seguir o exemplo da resposta dada à crise política de 12 de abril de 2012 no país africano.
“Tanto a CPLP como a CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental], em concertação, aplicaram sanções aos golpistas naquela altura e isso possibilitou pressionar o poder instituído ilegalmente a orientar um processo democrático para o retorno à normalidade constitucional”, recordou.
O porta-voz do protesto acrescentou que a sociedade civil e os partidos políticos na Guiné-Bissau estão disponíveis para colaborar na identificação dos visados e no estabelecimento de uma “lista de pessoas a sancionar”.
Durante a concentração, os manifestantes dirigiram ainda duras críticas à atuação de várias lideranças internacionais face à situação política em Bissau.
Sumaila Jaló acusou antigos governantes portugueses, a atual liderança política francesa e o Presidente do Senegal de “cumplicidade com a consolidação da ditadura”.
Em contrapartida, enalteceu a posição de Timor-Leste, cujo Governo “não se calou” perante a crise no país.
“O Estado de Timor-Leste e o seu Governo não se calaram quando a CPLP escolhia realizar a sua cimeira num país em ditadura, muito menos atribuir a sua presidência a um ditador. Esse Estado denunciou esta cumplicidade”, disse.
Evocando a história da luta pela independência da Guiné-Bissau, que “começou a partir das diásporas”, os manifestantes asseguraram que a mobilização global vai continuar até à reposição dos valores da liberdade e da dignidade humana.
O presidente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, está em prisão preventiva desde sexta-feira nas celas da Segunda Esquadra da Polícia de Ordem Pública (POP), em Bissau, após um período em prisão domiciliária.
O dirigente foi detido inicialmente na sequência do golpe militar de 26 de novembro e, após dois meses na cadeia, regressou a casa com termo de identidade e residência, mas impedido de se movimentar.
O partido e Simões Pereira apoiaram o candidato Fernando Dias da Costa, que reclamou vitória na primeira volta das eleições, realizadas em novembro passado, sobre o Presidente e recandidato Umaro Sissoco Embaló.
Antes da divulgação dos resultados oficiais, os militares tomaram o poder, depuseram Embaló e prenderam Simões Pereira.
A oposição classifica o golpe militar como uma alegada encenação do antigo Presidente da República, a quem acusa de continuar a comandar os destinos da Guiné-Bissau.
O Alto Comando Militar que governa o país marcou novas eleições para 06 de dezembro, aprovou uma nova Constituição que atribui mais poderes ao chefe de Estado e que será submetida a referendo em 30 de agosto.
DGYP (BM/SMM/HFI) // MLL
By Impala News / Lusa