Quase 1,6 milhões de portugueses sem médico de família: como chegámos aqui e o que pode mudar
O número de portugueses sem médico de família voltou a aumentar em 2025, com 1,56 milhões de utentes sem acesso a cuidados de saúde primários. Quase metade dos médicos de família têm mais de 65 anos. É um problema com 20 anos de história, falhas acumuladas e soluções que outros países já encontraram.
O relatório do Conselho das Finanças Públicas apresentado hoje em Lisboa é um retrato difícil. Em 2025, o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a aumentar, invertendo a ligeira melhoria do ano anterior. São agora 1,56 milhões de pessoas – mais 41 mil do que em 2024 – que não têm acesso a um médico de família no Serviço Nacional de Saúde. A maioria, 1,1 milhões, está concentrada na região de Lisboa e Vale do Tejo.
Vinte anos de um problema que não se resolveu
O problema não é novo. Há mais de duas décadas que o défice de médicos de família é identificado como uma das principais fragilidades do SNS. Em 2023, havia 1,7 milhões de utentes sem médico de família atribuído. Em 2022, a situação era semelhante. No início dos anos 2000, estimava-se que mais de um milhão de portugueses não tinham acesso a este nível de cuidados, com cerca de 40% concentrados na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.
No início desta década, as projeções eram otimistas. Ponderando as aposentações previstas e os novos especialistas em formação, estimava-se que todos os portugueses teriam médico de família até 2026 ou 2027. Não aconteceu. O dado que não estava a ser equacionado foi a saída em massa de médicos de família do SNS para o setor privado, fenómeno que acelerou com a pandemia e que criou um impacto completamente inesperado. “Portugal tem médicos em número suficiente – eles não estão no SNS”, resumiu em entrevista recente um especialista em política de saúde.
O envelhecimento da classe médica
O alerta do CFP vai além do número de utentes sem médico de família. Dos 9.343 médicos inscritos na especialidade de medicina geral e familiar no final de 2024, 45% tinham mais de 65 anos. O previsível aumento das aposentações nos próximos anos pode agravar dramaticamente a situação. “O previsível aumento das aposentações poderá agravar as restrições no acesso aos cuidados primários. Esta pressão tenderá a repercutir-se nos serviços hospitalares, comprometendo a adequada referenciação dos doentes e induzindo o recurso direto às urgências hospitalares”, alerta o CFP.
Portugal já tem o maior número de episódios de urgência hospitalar por habitante de toda a OCDE, com cerca de sete milhões de episódios anuais. Estima-se que cerca de 47% desses episódios são situações que não deveriam ter recorrido à urgência hospitalar. A falta de médico de família é um dos principais fatores que empurra os utentes para a urgência.
O que correu mal
As falhas acumularam-se em várias frentes ao longo de duas décadas.
• A primeira é a política de remuneração. Os médicos de família do SNS auferem salários que não conseguem competir com o setor privado ou com as condições oferecidas por outros países europeus. A emigração de médicos portugueses para Reino Unido, Suíça, Alemanha e França tem sido uma realidade constante e não abrandou.
• A segunda é a assimetria regional. Os territórios do interior, as zonas rurais e os subúrbios das grandes cidades têm consistentemente maior dificuldade em atrair e fixar médicos de família. As Unidades de Saúde Familiares, criadas pela grande reforma de 2005, foram um passo positivo, mas insuficiente para corrigir estas assimetrias.
• A terceira é o ritmo de formação. O número de vagas para o internato de medicina geral e familiar tem sido cronicamente inferior às necessidades do sistema. Mesmo quando há vagas, nem todas são preenchidas, porque os médicos recém-formados optam por especialidades com melhores condições de trabalho ou pelo setor privado.
• A quarta é a gestão da saída. Não houve mecanismos eficazes para travar a saída de médicos de família do SNS para o setor privado. As tentativas de criar regras de exclusividade geraram resistência e nunca foram aplicadas de forma consistente.
O que outros países fizeram
Outros países da UE e da OCDE enfrentaram problemas semelhantes e encontraram soluções que Portugal ainda não replicou de forma sistemática. A Dinamarca e a Holanda apostaram em modelos com incentivos financeiros para médicos de família que aceitam trabalhar em zonas carenciadas, combinados com sistemas de enfermagem avançada que permitem às enfermeiras especialistas assumir parte das funções do médico de família em consultas de rotina, como a gestão de doenças crónicas estáveis, a renovação de receitas e o acompanhamento pós-hospitalar.
Espanha implementou programas de incentivo à fixação em zonas rurais e do interior, com complementos salariais, acesso a habitação e flexibilização dos horários, combinados com uma aposta forte na telemedicina para comunidades remotas.
França criou as “maisons de santé pluriprofessionnelles” (“casas de saúde multidisciplinares”, em tradução direta), estruturas onde médicos de família, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais trabalham em conjunto, partilhando infraestrutura e administrativos, o que permite a cada profissional concentrar-se no que faz melhor e aumentar a capacidade de resposta global.
Finlândia e Suécia apostaram na digitalização avançada dos cuidados primários, com sistemas de triagem digital que permitem resolver por teleconsulta uma percentagem significativa das situações que de outra forma exigiriam uma consulta presencial com o médico de família.
O que Portugal pode fazer
As soluções existem e são conhecidas. A questão é de vontade política e de velocidade de implementação. No curto prazo, a expansão das consultas não presenciais e da telemedicina pode aumentar a capacidade de resposta sem aumentar o número de médicos de família. As consultas não presenciais cresceram 3,3% em 2025, mas ainda representam uma fração pequena do total.
No médio prazo, a criação de incentivos financeiros e não financeiros robustos para fixação em zonas carenciadas e para a permanência no SNS é indispensável. Em 2024, 6% da população portuguesa referiu ter tido necessidades não satisfeitas de consulta com o médico de família, o dobro da média da UE. Esta diferença não se corrige sem investimento sério.
No longo prazo, a expansão do papel das enfermeiras especialistas e de outros profissionais de saúde nos cuidados primários é uma das reformas com maior potencial de impacto. Em Portugal, a taxa de internamentos por causas evitáveis é de 236 por 100 mil habitantes, um valor bastante inferior à média da OCDE de 473, o que mostra que os cuidados primários existentes funcionam bem. O problema não é a qualidade. É o acesso.
O SNS tem conseguido aguentar uma pressão que poucos sistemas de saúde do mundo conseguiriam. Mas aguenta cada vez mais com menos margem. E os 1,56 milhões de portugueses sem médico de família são o sinal mais visível de um sistema que chegou ao limite do que pode fazer sem reforma estrutural.