O monge que viu o Cometa Halley 600 anos antes de Halley e ainda tentou voar
O Cometa Halley pode ter o nome errado. Seiscentos anos antes de Edmond Halley calcular a sua órbita, um monge inglês já tinha percebido que se tratava do mesmo cometa visto décadas antes, e ainda encontrou tempo para saltar de uma torre com asas improvisadas.
O nome Cometa Halley está associado, há mais de 300 anos, ao astrónomo britânico Edmond Halley, que no início do século XVIII demonstrou que os cometas observados em 1531, 1607 e 1682 eram, na verdade, o mesmo objeto celeste, regressando a cada cerca de 76 anos. Mas uma nova investigação, conduzida por investigadores da Universidade de Leiden, na Holanda, sugere que essa descoberta já tinha sido feita seis séculos antes, por um monge inglês praticamente desconhecido do grande público.
Quem foi Eilmer de Malmesbury
Em 1066, um monge beneditino já idoso, conhecido como Eilmer, ou Aethelmaer, da Abadia de Malmesbury, no sudoeste de Inglaterra, observou uma estrela brilhante de cauda longa a atravessar o céu da primavera. Segundo o cronista medieval William de Malmesbury, Eilmer não ficou apenas assustado. Reconheceu o objeto. Já o tinha visto antes, décadas antes, em 989, quando era jovem.
Segundo o relato do cronista, Eilmer ter-se-á dirigido diretamente ao cometa: “Chegaste, não foi? Chegaste, fonte de lágrimas para muitas mães.” Mas as suas palavras carregavam mais do que medo. Eilmer percebeu que estava a ver o mesmo objeto duas vezes na vida, uma perceção que exigia memória pessoal, capacidade de comparar o tempo e uma lucidez que atravessava décadas. Rara na Idade Média. Notável em qualquer época.
Um cometa, cinco aparições, um padrão escondido
A investigação dos professores Simon Portegies Zwart e Martin Lewis mostra que, no período em torno de 1066, o cometa foi visto cinco vezes ao longo dos séculos. Na tradição oral, estas aparições eram associadas a mortes de reis, guerras ou fomes nas Ilhas Britânicas, sempre interpretadas como maus presságios.
Em 1066, o cometa foi observado na China durante mais de dois meses. Atingiu o seu brilho máximo a 22 de abril, mas só foi visto na Bretanha e nas Ilhas Britânicas a 24 de abril desse ano.
O momento não podia ser mais simbólico: o cometa apareceu durante o breve reinado de Harold Godwinson, o último rei anglo-saxónico de Inglaterra. Meses depois, Harold estava morto na Batalha de Hastings e tinha começado o domínio normando. O cometa ficou para sempre registado na Tapeçaria de Bayeux, que retrata os acontecimentos de 1066.
A descoberta de Eilmer, seis séculos antes de Halley
Halley demonstrou matematicamente, no início do século XVIII, que o cometa observado em 1531, 1607 e 1682 era o mesmo objeto, com um período orbital de aproximadamente 76 anos. Eilmer, sem qualquer instrumento científico, sem matemática orbital, apenas com a sua memória, tinha chegado a uma conclusão semelhante seis séculos antes: o cometa de 1066 era o mesmo que ele tinha visto em 989.
“Esta investigação foi muito divertida de fazer, mas também achei desafiante trabalhar num projeto tão interdisciplinar ao lado de um historiador”, afirmou Portegies Zwart. Os investigadores defendem que o Cometa Halley devia, pelo menos, receber alguma reflexão histórica sobre o seu nome, já que tinha sido observado duas vezes, séculos antes, por alguém que percebeu o padrão.
O monge que também tentou voar
Eilmer de Malmesbury não é uma figura desconhecida dos medievalistas, mas por outro motivo completamente diferente. É conhecido sobretudo por, por volta do ano 1010, ter atado um par de asas improvisadas aos braços e pernas e saltado do topo da torre da Abadia de Malmesbury. Segundo o relato do cronista, Eilmer planou cerca de 200 metros antes de cair e fraturar ambas as pernas.
A história do voo de Eilmer é citada há mais de um século em histórias da aviação primitiva. E é precisamente o mesmo cronista, William de Malmesbury, na sua crónica do século XII “Gesta Regum Anglorum”, que regista tanto o episódio do voo como o reconhecimento do cometa. O retrato que emerge é o de um homem disposto a testar ideias com o próprio corpo, e a confiar na própria memória mais do que na superstição do seu tempo.
Deve o cometa mudar de nome?
Os investigadores não defendem que Halley perca o crédito pelo trabalho que fez. A formalização científica da periodicidade do cometa, com base em cálculos orbitais, foi um feito genuíno do astrónomo britânico no século XVIII. A questão que colocam é outra: se se quisesse homenagear a primeira pessoa em Inglaterra a notar a importância do cometa, alguns astrónomos sugerem que essa honra deveria ir para Aethelmaer de Malmesbury.
Não se trata de tirar crédito a um astrónomo do século XVIII. Trata-se de recordar quem lá chegou primeiro, com uma ferramenta muito mais simples: a memória.
Hoje, uma janela de vitral na Abadia de Malmesbury, instalada em 1920, mostra Eilmer a observar o céu. Um pequeno tributo a um monge que, oitocentos anos antes da era espacial, olhou para o mesmo ponto do céu duas vezes na vida e percebeu que estava a ver a mesma coisa.