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O gesto 304 de Lamine Yamal e o bairro que a extrema-direita espanhola quer apagar

Cada vez que Lamine Yamal marca um golo, faz com os dedos o número 304. São os últimos dígitos do código postal de Rocafonda, o bairro de Mataró onde cresceu, que a extrema-direita espanhola chamou de “esterco multicultural”. No Mundial 2026, o gesto voltou a dividir a Espanha.

O gesto 304 de Lamine Yamal e o bairro que a extrema-direita espanhola quer apagar

No primeiro golo de Lamine Yamal no Mundial 2026, frente à Arábia Saudita, o jovem avançado do Barcelona correu para a câmara e fez o gesto de sempre: os dedos em forma do número 304. O mesmo gesto que já tinha feito no Europeu, nos jogos do Barcelona, em cada golo que marcou desde que se tornou profissional. São os últimos dígitos do código postal de Rocafonda, o bairro humilde de Mataró, na Catalunha, onde cresceu. E são também, para muitos, um símbolo político num país onde a identidade e a imigração continuam a ser campos de batalha.

Depois do empate com Cabo Verde na estreia, Yamal foi titular frente à Arábia Saudita e transformou o jogo. Marcou, festejou com o gesto 304 e acrescentou algo novo: ajoelhou-se no relvado e tocou com a testa no chão, num gesto que muitos identificaram como sujud, a prostração islâmica de gratidão. Espanha venceu por 4-0 e Yamal foi o melhor em campo. O que mais gerou debate não foi, porém, o golo; foi a celebração.

O que significa o gesto 304 de Lamine Yamal

O próprio Yamal explicou o gesto numa entrevista à GQ Espanha. “O gesto de celebração saiu com os meus amigos. Quando marco, faço o 304 para reivindicar o bairro.” O 304 é o sufixo do código postal 08304, o de Rocafonda, o bairro de Mataró onde viveu com os pais, a avó Fátima e os primos, numa comunidade de trabalhadores imigrantes a 30 quilómetros de Barcelona.

Rocafonda foi construído nos anos 1960 para acomodar trabalhadores migrantes do sul de Espanha, sobretudo andaluzes e extremenhos. Nos anos 1990, quando esses primeiros residentes se mudaram para bairros mais ricos, chegaram imigrantes africanos, atraídos pelo baixo custo de vida. Em 2023, 52% dos habitantes de Rocafonda nasceram fora da Catalunha, com 37% nascidos no estrangeiro, uma das percentagens mais altas de toda a Espanha. Cerca de metade dos residentes é de origem marroquina. Cerca de metade da população vive em risco de pobreza.

O bairro que a extrema-direita quer apagar

Rocafonda não é apenas humilde. É um alvo. O Vox, partido de extrema-direita espanhola, já se referiu ao bairro como “esterco multicultural” e “lixo étnico”, utilizando-o como símbolo do que considera o fracasso da imigração e da diversidade. Para os ultranacionalistas espanhóis, Rocafonda representa tudo o que temem: um bairro maioritariamente imigrante, pobre, árabe e muçulmano, no coração da Catalunha.

O próprio pai de Yamal, Mounir Nasraoui, tornou-se símbolo desta batalha. Quando o Vox montou uma tenda eleitoral em Rocafonda para fazer campanha, Mounir apareceu e começou a gritar “racistas” para os apoiantes do partido. Acabou detido pela polícia. O episódio divide até hoje os habitantes do bairro: alguns veem-no como herói, outros como alguém que foi longe demais.

Na parede de uma escadaria de Rocafonda, uma pintura resume o sentimento da comunidade: “No bairro de Rocafonda, mais Lamine Yamals e menos despejos”.

A polémica da prostração

A celebração de Yamal frente à Arábia Saudita acrescentou uma camada extra à discussão. O gesto de se ajoelhar e tocar o chão com a testa foi amplamente identificado como sujud, a prostração de gratidão islâmica. Yamal não comentou publicamente o gesto. Mas a reação foi imediata em Espanha.

Grupos de extrema-direita como o movimento Revuelta publicaram que “um golo não pode estar acima de uma nação”. O youtuber de extrema-direita Álvaro Ojeda afirmou abertamente que não festejou o golo. “Eu não me vendo por um golo na fase de grupos”, disse. A ironia não escapou a ninguém: um dos mais acérrimos críticos de Yamal estava implicitamente a dizer que poderia venerar o jogador numa final, mas não numa fase de grupos. Ou seja, a celebração importava-lhe mais do que o futebol.

Curiosamente, vários adeptos sauditas presentes no estádio reagiram com entusiasmo ao gesto, reconhecendo-o como islâmico e aplaudindo Yamal mesmo depois de ele ter marcado contra a sua seleção.

A ironia que ninguém pode ignorar

Lamine Yamal é filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial. Nasceu em Espanha, cresceu em Rocafonda, foi formado no Barcelona e representa hoje a seleção espanhola melhor do que qualquer outro jogador desta geração. As suas chuteiras no Mundial têm as bandeiras de Marrocos e da Guiné Equatorial, mas não a bandeira espanhola. Para muitos, é uma declaração. Para ele, é simplesmente quem é.

Os setores da extrema-direita que chamam a Rocafonda de “esterco multicultural” e que se recusam a festejar os golos de Yamal têm de conviver com uma realidade incómoda: o jogador que melhor representa Espanha neste Mundial é filho do bairro que odeiam, reza o Deus que recusam e faz, a cada golo, um gesto que os força a ver de onde ele vem. Cada 304 é uma resposta.

Luís Martins; WiN
Imagem Instagram

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