Netanyahu dá ao exército “total liberdade de ação” no Líbano e ignora acordo com o Irão
Benjamin Netanyahu anunciou hoje ter dado ao exército israelita “total liberdade de ação” no Líbano, desafiando abertamente o acordo alcançado entre os Estados Unidos e o Irão na semana passada, que inclui a frente libanesa. Israel ocupa atualmente cerca de 570 quilómetros quadrados de território libanês e conta mais de 4.100 mortos desde março.
O acordo EUA-Irão da semana passada parecia ter aberto uma janela para a estabilização do Médio Oriente. Netanyahu fechou-a hoje. O primeiro-ministro israelita divulgou um comunicado em vídeo no qual afirma ter dado ao exército israelita “total liberdade de ação” no Líbano, sem qualquer restrição quanto às suas operações no país vizinho.
“A ordem que o ministro da Defesa e eu demos ao Exército israelita é clara e não mudou: os nossos combatentes no sul do Líbano têm total liberdade de ação para frustrar qualquer ameaça direta ou iminente contra eles ou contra os habitantes do norte”, declarou Netanyahu. O primeiro-ministro acrescentou que Israel permanecerá na chamada “faixa de segurança”, território libanês ocupado pelas forças israelitas, “durante o tempo que for necessário” para proteger os habitantes do norte do país.
O ponto de fricção que ameaça o acordo
O comunicado de Netanyahu surge num momento particularmente delicado. O acordo entre os EUA e o Irão inclui especificamente a frente libanesa, e o (Irão tinha exigido o fim dos ataques israelitas no Líbano como condição para avançar com o acordo final. A posição de Netanyahu contradiz diretamente esta condição e coloca em risco a assinatura formal prevista para 19 de junho em Genebra.
Apesar do memorando de entendimento alcançado entre Washington e Teerão, que inclui a frente libanesa, o Governo de Netanyahu reivindicou o direito de Israel de continuar a ocupar território do Líbano e a trocar fogo com o Hezbollah, aliado do Irão. Este ponto de fricção tinha parecido abrandar no fim de semana, quando Israel reduziu a intensidade dos seus ataques após uma trégua não-oficial com o Hezbollah, anunciada na tarde de sexta-feira. O comunicado de hoje inverte esse sinal.
Presidente israelita defende Trump
Nem toda a classe política israelita partilha a posição de Netanyahu. O presidente israelita defendeu Trump e rejeitou as críticas internas ao acordo com o Irão, sinalizando uma divisão dentro do próprio establishment israelita sobre como responder ao entendimento entre Washington e Teerão.
A tensão entre Netanyahu e os Estados Unidos não é nova, mas raramente foi tão explícita. O primeiro-ministro israelita tem resistido sistematicamente às pressões americanas para moderar as operações militares tanto em Gaza como no Líbano, invocando o direito de Israel à autodefesa e a garantia da segurança dos seus cidadãos no norte do país.
O custo humano no Líbano
Os números falam por si. Desde o início da ofensiva israelita no Líbano, a 2 de março, o número de mortos libaneses atingiu 4.106, com 12.153 feridos, segundo os dados mais recentes das autoridades libanesas. Israel ocupa atualmente cerca de 570 quilómetros quadrados de território libanês, justificando a presença com a necessidade de criar uma zona-tampão contra o Hezbollah.
O comunicado de Netanyahu deste declarado hoje representa um desafio direto ao frágil equilíbrio diplomático que os Estados Unidos tentaram construir com o acordo de Genebra. A questão que os analistas internacionais colocam agora é se Washington terá capacidade ou vontade de pressionar Netanyahu a recuar.