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A mulher que convenceu a Inglaterra de que dava à luz coelhos e enganou o próprio rei

Em 1726, uma camponesa inglesa convenceu cirurgiões, médicos e a corte do rei George I de que dava à luz coelhos. A história da mulher que deu à luz coelhos tornou-se uma sensação nacional antes de se revelar uma das fraudes médicas mais espantosas da história.

A mulher que convenceu a Inglaterra de que dava à luz coelhos e enganou o próprio rei

Como é que uma mulher pobre, sem instrução, conseguiu convencer alguns dos médicos mais respeitados de Inglaterra de que estava a dar à luz coelhos? A história de Mary Toft, ocorrida em 1726 na pequena localidade de Godalming, é um dos episódios mais bizarros já registados, e a resposta diz tanto sobre a ciência da época como sobre a desesperação humana.

Como começou tudo

Mary Toft era uma jovem camponesa, mãe de três filhos, que vivia na pobreza com o marido Joshua. Em 1726, sofreu um aborto espontâneo. Segundo o seu próprio relato posterior, depois de perseguir sem sucesso um coelho num campo, sonhou repetidamente com coelhos nas noites seguintes.

Pouco depois, Mary Toft alegou começar a “dar à luz” partes de animais. A família chamou o cirurgião local, John Howard, que ficou atónito ao ajudá-la a “dar à luz” nove animais, todos mortos e, na verdade, partes de coelhos, não animais inteiros. Em vez de suspeitar de fraude, Howard escreveu entusiasmado a outros homens de ciência por todo o país, pedindo ajuda para investigar o que considerava um fenómeno extraordinário.

A teoria da “impressão materna”

Para entender por que a história foi tomada tão a sério, é preciso compreender uma crença médica da época: a “impressão materna”. A ideia, amplamente aceite no século XVIII, defendia que aquilo que uma mulher grávida via, sentia ou sonhava podia moldar fisicamente o seu filho ainda no útero. Se uma mulher se assustasse com um animal, dizia-se, a criança podia nascer com características desse animal.

Nesse contexto, a explicação de Mary Toft, de que o encontro com o coelho e os sonhos repetidos teriam afetado a sua gravidez, não era vista como absurda. Era, pelo contrário, perfeitamente compatível com o conhecimento médico aceite na época.

O rei envia os seus próprios médicos

O caso espalhou-se tão rapidamente que chegou aos ouvidos do rei George I. O monarca enviou dois homens para investigar: Nathanael St. André, cirurgião-anatomista da Casa Real, e Samuel Molyneux, secretário do Príncipe de Gales.

A 15 de novembro de 1726, os dois enviados reais chegaram a Guildford, onde Mary Toft estava agora a ser observada de perto. Mal chegaram, foram informados de que Mary tinha acabado de dar à luz o seu décimo quinto coelho. E, com os dois homens presentes, Mary voltou a “dar à luz” mais animais mortos.

St. André, que não era nenhum charlatão, mas um membro respeitado da casa real com formação e experiência, ficou completamente convencido da autenticidade dos partos. Escreveu relatórios detalhados, realizou análises anatómicas e apresentou as suas conclusões ao próprio rei, que autorizou a continuação da investigação. Outro médico enviado, Cyriacus Ahlers, manteve-se cético desde o início, notando inconsistências e sinais de engano.

Levada para Londres sob escrutínio

A 29 de novembro de 1726, Mary Toft foi transportada para Londres e instalada num estabelecimento de banhos, onde foi estudada por vários médicos e cirurgiões eminentes sob a supervisão de St. André. Entre eles estava John Maubray, autor de um tratado sobre os chamados “sooterkin”, criaturas que se acreditava poderem nascer de mulheres que vivessem em ambientes muito quentes, e que viu no caso de Mary Toft uma oportunidade para validar as suas próprias teorias.

Também presente estava Sir Richard Manningham, um médico respeitado que, desde o início, suspeitava de fraude.

A farsa desmorona-se

Mantida sob vigilância constante em Londres, Mary Toft deixou de “dar à luz” coelhos. À medida que o escrutínio aumentava, surgiram inconsistências evidentes, incluindo a presença de comida nos estômagos dos animais “nascidos”, o que seria impossível se tivessem sido gerados dentro do corpo de Mary.

A situação piorou quando um cúmplice foi apanhado a tentar introduzir um coelho às escondidas no local onde Mary estava a ser observada. Pressionada por Manningham, que ameaçou submetê-la a uma operação para examinar o seu útero, Mary Toft acabou por confessar, a 7 de dezembro de 1726, que tudo tinha sido uma fraude.

O que estava realmente a acontecer

A verdade era tão chocante quanto a farsa. Mary Toft tinha estado a inserir partes de coelhos no próprio corpo, num processo extremamente doloroso e arriscado, para depois simular os “partos” perante os médicos. O motivo? A esperança de conseguir uma pensão vitalícia do rei graças à sua extraordinária “capacidade”.

As consequências

A confissão de Mary Toft foi um desastre para a comunidade médica britânica. Vários médicos respeitados, em particular Nathanael St. André, viram as suas carreiras arruinadas pelo escárnio público. O artista William Hogarth produziu uma gravura satírica do caso, e outros panfletos e caricaturas ridicularizaram os médicos envolvidos durante anos.

Mary Toft passou algum tempo na prisão, mas foi libertada sem grandes consequências legais. Nenhum profissional médico queria mantê-la por perto como recordação viva da sua própria credulidade.

O caso de Mary Toft tornou-se, desde então, um exemplo clássico de como a autoridade científica, a pressão social e a necessidade de explicações extraordinárias podem levar até os mais instruídos a acreditar no inacreditável.

Luís Martins; WiN
Imagem artificial

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