O órgão esquecido que pode prever quanto tempo vai viver e de que nunca ouviu falar
Existe no seu corpo um órgão que a medicina adulta praticamente ignora. Chama-se timo, fica no peito e vai encolhendo com a idade. Um estudo com recurso a inteligência artificial acaba de descobrir que o seu estado de saúde pode prever o risco de cancro e a longevidade.
O timo e a longevidade estão mais ligados do que a medicina sempre pensou. A glândula fica entre o esterno e o coração, é fundamental na infância para o desenvolvimento do sistema imunitário e vai sendo gradualmente substituída por tecido gordo à medida que envelhecemos. Na maioria dos adultos, é praticamente invisível nos exames e ignorada pelos médicos. Um estudo publicado a 1 de junho no Journal of Clinical Investigation veio mudar essa perspetiva de forma significativa.
Investigadores do Mass General Brigham, hospital universitário afiliado à Universidade de Harvard, usaram inteligência artificial para analisar dezenas de milhares de TAC de adultos e medir o estado do timo em cada um. O que encontraram surpreendeu: as pessoas com um timo mais saudável viviam mais tempo e tinham menor risco de desenvolver cancro. As que tinham o timo mais involuído apresentavam o padrão inverso.
O que é o timo e porque toda a gente o ignorava
O timo é uma glândula do sistema imunitário que funciona como ma escola para os linfócitos T, as células que identificam e combatem ameaças no organismo. Na infância e na adolescência é relativamente grande e muito ativo. A partir dos 20 anos começa a encolher, processo que os investigadores chamam de involução tímica. Aos 70 anos, na maioria das pessoas, está quase totalmente substituído por gordura.
Durante décadas, a medicina assumiu que esta involução era simplesmente normal e irreversível, sem consequências práticas para a saúde adulta. O estudo de Harvard sugere que esse pressuposto estava errado.
O que a inteligência artificial descobriu
A equipa usou modelos de inteligência artificial para medir automaticamente a densidade e o volume do timo em TAC realizadas por outras razões clínicas, abordagem que não seria viável manualmente à escala de dezenas de milhares de exames.
Os resultados mostraram que os adultos com timo mais saudável, mesmo em idades avançadas, tinham taxas de sobrevivência significativamente melhores e menor incidência de cancro. A associação manteve-se mesmo após controlo para outros fatores de risco conhecidos, como tabagismo, obesidade e doenças crónicas.
“O timo tem sido amplamente negligenciado na medicina adulta”, afirmou o investigador principal Shady Naga. “Este estudo sugere que devíamos prestar muito mais atenção a este órgão ao longo de toda a vida.”
Por que é importante para a longevidade
A ligação entre o timo e a longevidade faz sentido biológico. Um sistema imunitário mais robusto significa maior capacidade de detetar e eliminar células cancerosas antes de se tornarem tumores, maior resistência a infeções e menos inflamação crónica, um dos principais motores do envelhecimento biológico.
Os dados do estudo alinham-se com o que se sabe sobre envelhecimento e longevidade: as pessoas que envelhecem bem tendem a ter sistemas imunitários mais preservados. O timo pode ser uma das razões.
A cientista portuguesa que usa IA para combater o cancro
A ligação entre inteligência artificial, sistema imunitário e cancro não é apenas um tema de investigação norte-americana. Em Estocolmo, no SciLifeLab, a cientista portuguesa Inês Cunha, 26 anos, trabalha nesta fronteira. A engenheira biomédica desenvolveu modelos de deep learning capazes de estudar células tumorais através de microscopia de última geração, de formas que os humanos nunca conseguiram.
O contributo mais significativo de Inês Cunha é a interpretabilidade dos algoritmos. Até aqui, a inteligência artificial funcionava como uma caixa negra: dava uma resposta, mas não explicava o raciocínio. A investigadora portuguesa mudou isso. “Desenvolvi novas formas, matematicamente, de conseguirmos interpretar as decisões que estes modelos fazem”, explicou ao Portal de Notícias da Impala.
Graças a este avanço, os médicos podem em breve perceber quais as características das células que levam a determinadas previsões e aprender mais sobre a biologia do tumor no processo.
O objetivo final é claro. Quando questionada se a investigação visa perceber o mecanismo do cancro e eventualmente contrariá-lo para evitar o seu desenvolvimento, Inês Cunha foi taxativa – “É, sim”. “Exatamente.”
A tecnologia que Harvard usou para estudar o timo e uma tecnologia semelhante à desenvolvida por Inês Cunha e partem ambas do mesmo princípio: a inteligência artificial como instrumento de precisão ao serviço da vida. Caminhos diferentes, o mesmo destino.
O que pode fazer para cuidar do timo
Ainda não existe intervenção médica aprovada especificamente para preservar o timo em adultos, mas os investigadores apontam para um conjunto de fatores associados a uma involução mais lenta: exercício físico regular, dieta anti-inflamatória, sono de qualidade e ausência de tabagismo.
Sabe-se que certos hábitos alimentares enfraquecem o sistema imunitário e que, pelo contrário, constituintes como o dos brócolos ativam o sistema imunitário segundo estudos recentes. Tudo o que cuida da imunidade cuida provavelmente também do timo.
O próximo passo para a equipa de Harvard é perceber se é possível desenvolver intervenções específicas para abrandar a involução tímica e se isso se traduziria em benefícios mensuráveis na saúde e na longevidade. Por agora, o mais importante é reconhecer que este órgão esquecido pode saber mais sobre o futuro do seu corpo do que qualquer análise de rotina.