Jessica Athayde Assume luta contra a ansiedade social
A atriz sofre com este problema há vários anos e, apesar de ter alguns truques para o combater, nem sempre consegue sair de casa. “Tem vindo a piorar”, conta, admitindo que esta condição é “um impedimento” na sua vida.
Jessica Athayde falou sem rodeios sobre um problema que a acompanha há vários anos e que, como a própria assume, tem vindo a condicionar-lhe a vida. A atriz, de 40 anos, recorreu às redes sociais para desabafar sobre a ansiedade social que sente e sobre a forma como esta dificuldade a obriga, muitas vezes, a fazer planos ao detalhe, a evitar multidões ou até a cancelar compromissos à última hora.
O desabafo começou antes do concerto de Bad Bunny, que decorreu na terça-feira, 26 de maio, no Estádio da Luz, em Lisboa. Horas antes do espetáculo, Jessica já estava a pensar na melhor forma de conseguir ir ao evento sem ficar presa no meio da confusão à saída. Num story publicado na sua conta de Instagram, explicou que gosta de concertos, mas que precisa sempre de sentir que tem uma forma de sair rapidamente, caso se sinta mal. “Pode parecer ridículo para alguns, mas a ansiedade social que sinto é muito real. Eu adoro concertos, mas normalmente tenho sempre de ficar perto das saídas, com um plano de fuga caso me dê uma coisinha má. Ao longo dos anos isto tem vindo a piorar. São raras as vezes que não vou, mas já aconteceu”, disse a atriz.
Depois partilhou a estratégia para facilitar o regresso a casa. “Estou a pensar em ir deixar o carro agora de manhã ali para os lados do estádio, em Benfica, voltar, porque eu vivo em Cascais, e depois ir de transportes para Lisboa mais logo. Porque assim, antes de o concerto acabar, saio rápido para tentar não apanhar toda a gente. Agora, qual é o esquema? A que horas eu devo ir? Se eu entrar o mais tarde possível? Está tudo bem”, disse no vídeo.
“Foi piorando”
A atriz acabou por ir ao concerto do artista porto-riquenho, que encheu o Estádio da Luz, e cumpriu o plano que tinha pensado: saiu algumas músicas antes do final para não enfrentar a multidão à saída. No dia seguinte, voltou ao tema e gravou um novo vídeo, desta vez para agradecer as mensagens que recebeu e para falar de forma mais direta sobre o impacto que a ansiedade social tem no seu quotidiano. “Um minuto e meio de desabafo, obrigada por não me fazerem sentir sozinha. Não imaginam a ajuda que isso me dá”, começou por escrever na legenda da publicação. Já no vídeo, Jessica dirigiu-se a todas as pessoas que também se revêm nesta dificuldade. “Queria dizer a quem sofre também de ansiedade social e tem dificuldade muitas vezes e deixa de fazer coisas por causa disso”, disse, antes de assumir que esta é uma limitação real na sua vida. “Isto é um impedimento na minha vida. Muitas vezes fico em casa e arrependo-me sempre no dia a seguir, mas naquele momento não estou capaz e não consigo. Muitas vezes vou até à última da hora e, à última da hora, corto-me e não vou”, confessou. A atriz explicou ainda que esta não é uma situação recente. Pelo contrário, acompanha-a há vários anos e, segundo a própria, tem-se agravado com o tempo. “Isto é uma coisa que acontece há muitos anos na minha vida e, à medida que vou ficando mais velha, foi piorando”, afirmou.
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Jessica contou também que as pessoas mais próximas já conhecem esta realidade e sabem que, por vezes, pode acabar por faltar a planos combinados. “Quem faz parte da minha vida sabe que tenho isto. As minhas amigas sabem muitas vezes que não podem contar comigo e que há a hipótese de eu faltar à última hora”, explicou. A atriz fez, no entanto, uma distinção entre os compromissos profissionais e os momentos em que tem liberdade para escolher se vai ou não. “Quando é trabalho, consigo estar mais focada e mentalizada, mas quando tenho a opção de fazer ou não, muitas vezes escolho não fazer porque me sinto muito ansiosa e fisicamente doente. Portanto, não vou e arrependo-me quase sempre”, disse.
Ainda assim, Jessica faz questão de sublinhar que nem sempre a ansiedade a impede de sair. Há vezes em que consegue ir, como aconteceu no concerto de Bad Bunny, mesmo que isso implique sair antes do fim, ficar perto das saídas ou ter um plano alternativo para se sentir mais segura. “Há muitas vezes que não vou, mas há muitas que vou. E quando vou, vale a pena”, afirmou. No final, a atriz quis deixar uma mensagem a quem vive a mesma realidade e, muitas vezes, se sente incompreendido. “Por isso, não queria deixar de gravar este vídeo e dizer que quem sofre de ansiedade social não está sozinho”, rematou.
O que é?
A psicóloga Vera de Melo explica que a ansiedade social “é uma perturbação caracterizada por um medo intenso e persistente de situações em que a pessoa sente que pode ser observada, avaliada, criticada ou rejeitada”. Não é apenas timidez ou nervosismo ocasional. “Existe um sofrimento emocional muito profundo e constante, que pode interferir significativamente na vida pessoal, académica, profissional e afetiva”, diz.
Principais sinais/sintomas
A ansiedade social pode manifestar-se a nível emocional, físico, cognitivo e comportamental. “Muitas vezes, quem está de fora nem percebe a dimensão do sofrimento, porque a pessoa pode parecer funcional enquanto vive um grande desgaste interno”, refere a psicóloga. No corpo: coração acelerado, tremores, suores, tensão muscular, boca seca, náuseas, rubor facial, falta de ar ou bloqueio mental.
Na cabeça: pensamentos como “vou parecer ridículo”, “vou dizer algo errado”, “vão perceber que estou nervoso” ou “ninguém vai gostar de mim”. No comportamento: evitar falar em grupo, fugir ao contacto visual, recusar convites, ficar agarrado ao telemóvel ou ensaiar mentalmente tudo o que se vai dizer.
Diogo Amaral assusta Jessica Athayde
Texto: Inês Neves; Fotos: Arquivo Impala.