Coleira com IA diz que consegue traduzir o que o seu cão ou gato está a pensar
Uma startup chinesa lançou a PettiChat, coleira com inteligência artificial que afirma traduzir os sons e comportamentos de cães e gatos em linguagem humana, com precisão de 95%. A comunidade científica é cética, mas já há mais de 10 mil pré-encomendas.
Os donos de animais de estimação perguntaram-se constantemente o que os seus cães e gatos estão a tentar dizer. Uma startup chinesa afirma ter a resposta e está a deixar o mundo a falar sobre isso.
A PettiChat, desenvolvida pela Meng Xiaoyi, com sede em Hangzhou, China, é uma coleira com inteligência artificial que, segundo a empresa, consegue traduzir vocalizações, emoções e comportamentos de cães e gatos em frases compreensíveis para humanos, com precisão de 94,6%.
O dispositivo pesa apenas 27 gramas, usa materiais ABS resistentes a mordidelas, tem certificação IP65, resistente a salpicos de água, e encaixa em qualquer coleira ou arnês existente. Os microfones integrados ativam-se em apenas 40 milissegundos após o animal emitir um som.
A tradução demora 1,2 segundos. O motor de IA é o modelo Qwen, desenvolvido pela Alibaba Cloud, treinado com mais de um milhão de amostras de vocalizações e comportamentos de animais.
O produto abriu pré-encomendas em maio e já ultrapassou 10 mil unidades reservadas. O lançamento oficial está marcado para 30 de maio, o próximo sábado. O preço base é de 799 yuan, cerca de 110 euros. Quem quiser pré-encomendar pode fazê-lo através da campanha no Kickstarter.
Conversa de dois sentidos

O que distingue a PettiChat das aplicações de entretenimento que já existem no mercado é, segundo a empresa, o facto de funcionar nos dois sentidos. A coleira não se limita a traduzir o que o animal diz, também converte palavras humanas em sons que os animais reconhecem instintivamente.
Nos vídeos de demonstração partilhados pela empresa, o miado de um gato é traduzido como “quero brincar” e o ladrar de um cão como “estou com fome”. A PettiChat afirma identificar mais de 20 expressões emocionais distintas e melhorar a sua precisão ao longo do tempo, através de aprendizagem adaptativa baseada nos hábitos específicos de cada animal. “Cada animal de estimação tem a sua própria linguagem. Estamos apenas a ajudá-lo a falar”, afirma a equipa no Kickstarter.
Privacidade e funcionalidades adicionais
Uma das questões mais colocadas pelos potenciais compradores é a privacidade. A empresa garante que a coleira usa deteção de som em modo offline e só se liga à cloud quando o animal emite um som, nunca grava de forma contínua e não tem câmara integrada, minimizando assim a transmissão de dados desnecessária.
A aplicação móvel associada permite aceder ao histórico de conversas e analisar os padrões de comunicação do animal ao longo do tempo. O dispositivo inclui ainda rastreamento GPS ativo durante 24 horas, com bateria para 1.000 traduções ou 100 horas de rastreamento GPS por carga. A recarga demora apenas uma hora, através do carregador magnético incluído na caixa.
Atualmente, a PettiChat suporta apenas cães e gatos, com os algoritmos treinados em amostras de ambas as espécies, mas afirma que que futuras atualizações poderão expandir a compatibilidade a outros animais domésticos.
Quanto ao acesso partilhado, por enquanto apenas uma conta pode controlar o dispositivo, mas a possibilidade de partilhar o acesso com familiares ou cuidadores está já no roteiro de desenvolvimento.
A equipa por detrás do produto
A empresa destaca as credenciais académicas da sua equipa como argumento de credibilidade. Os membros principais formaram-se em instituições como a Universidade de Tecnologia e Design de Singapura (SUTD), a Universidade de Tecnologia de Eindhoven (TU/e), a Universidade de Illinois (UIUC) e a Universidade de Zhejiang. A empresa refere ainda partilhar “linhagem académica semelhante” com os fundadores da DeepSeek e da Unitree Robotics.
Segundo o Kickstarter, a equipa passou dois anos a testar o dispositivo em mais de mil gatos e cães reais, antes de lançar o produto e angariou cerca de um milhão de euros junto de investidores tecnológicos iniciais.
A ciência é cética
Os 95% de precisão são, por enquanto, uma afirmação exclusiva da própria empresa. A Meng Xiaoyi não publicou estudos científicos independentes, dados verificáveis por laboratórios externos nem artigos de revisão por pares que confirmem esse valor.
A comunidade científica mantém-se cética. Estudos independentes sobre tradução acústica animal colocam a precisão real em cerca de 57%, muito abaixo do afirmado. Investigadores de comportamento animal sublinham que os animais comunicam uma parte significativa do seu significado através de linguagem corporal, contexto e ambiente, e não apenas através dos sons que produzem.
A revista HotHardware descreveu as demonstrações como “inegavelmente ensaiadas” e a ideia de converter um ladrar numa frase completa como “a roçar a ficção científica”. No fórum chinês da plataforma X, alguns utilizadores apelidaram a PettiChat de “teste à inteligência humana”.
Não é a primeira tentativa
A ideia de traduzir a linguagem animal não é nova. A Takara japonesa lançou a BowLingual em 2002, considerada o primeiro tradutor comercial de cães do mundo. Mais tarde, aplicações como a MeowTalk tentaram classificar o humor dos gatos. Na CES 2026, a Traini apresentou uma coleira focada em converter palavras humanas em sinais acústicos que os cães reconhecem.
O que distingue a PettiChat, segundo a empresa, é o uso de IA generativa em vez de bases de dados de frases pré-programadas, permitindo respostas mais naturais e variáveis em tempo real, combinando análise de som com rastreamento de movimentos.
Quanto custa e onde comprar
O preço base é de 799 yuan, cerca de 110 euros. Na campanha do Kickstarter, os primeiros apoiantes têm acesso a um plano ‘Super Early Bird’ por cerca de 102 euros, um desconto de 40% sobre o preço de retalho, com garantia de envio prioritário e sem taxa de subscrição.