Ljubomir Stanisic: o menino soldado da Bósnia que construiu um império e agora fecha um ciclo
Ljubomir Stanisic vendeu os restaurantes do Grupo 100 Maneiras após 17 anos. Conheça a história completa de ascensão, glória e turbulência do chef mais polémico de Portugal.
Ljubomir Stanisic chegou a Portugal aos 19 anos com uma mochila às costas e a guerra da Bósnia gravada na memória. Tornou-se num dos rostos mais reconhecidos da televisão portuguesa e no chef que dividiu o país entre admiradores e críticos.
Em 8 de maio de 2026, anunciou o fim de um ciclo: a venda dos três restaurantes do Grupo 100 Maneiras a um grupo internacional, encerrando 17 anos de aventura gastronómica em Lisboa. “O 100 Maneiras nunca foi apenas um, dois ou três restaurantes. Foi, antes de mais, o meu primeiro filho”, escreveu nas redes sociais, numa carta de amor que emocionou Portugal.
Infância roubada pela guerra
Antes de ser chef, antes da televisão, antes de tudo, Ljubomir Stanisic foi um miúdo feliz em Sarajevo. O pai era diretor das águas da cidade, a mãe trabalhava num jornal. A família tinha uma vida estável e tranquila.
“Era linda, linda e maravilhosa vida na Bósnia. Eu jogava basquete, íamos às montanhas apanhar flores, passávamos muito tempo no mar, ia muito à pesca”, recordou numa entrevista ao programa Alta Definição.
Tudo isso acabou quando a guerra chegou. “A minha infância morreu aos 14 anos. Morreu a bicicleta, a bola de futebol, a bola de basquete, foi-se tudo à vida.”
Num dos momentos mais dramáticos da sua infância, com apenas 11 anos, esfaqueou o pai depois de este ter espancado a mãe até deixá-la em coma.
A relação com o pai nunca mais foi a mesma, só décadas depois conseguiu fazer as pazes com essa memória. “Nunca me facilitou a vida, nunca foi um pai carinhoso. Mas isso fez de mim o que sou hoje. E isso tenho de reconhecer”, admitiu.
Ainda adolescente, foi menino soldado nas montanhas em redor de Sarajevo, encarregado de guardar durante a noite 40 idosos e crianças. “Lembro-me de fazer turnos à noite, com a arma que era pesadíssima para mim, a ver os tiros por cima da minha cidade que pareciam fogo de artifício. Por outro lado, é muito triste, porque a cidade estava a ser destruída. E tinha medo que alguém estivesse a subir para nos atacar“.
A fuga de Sarajevo foi num avião de carga, sem assentos nem nada a que se agarrar, cheio de crianças a chorar. Foi o seu primeiro voo de avião.
De Sarajevo a Lisboa: recomeçar do zero
Chegou a Portugal aos 19 anos, em 31 de agosto de 1997, sem dominar o idioma. A irmã, Natasha, já cá vivia. Apaixonou-se pela capital e pelas mulheres portuguesas. Aos 14 anos, tinha trabalhado numa padaria para sustentar a família e, em Lisboa, voltou a começar do princípio.
Aos 26 anos, abriu o primeiro 100 Maneiras em Cascais, em parceria com José Avillez. O restaurante foi à falência em 2008. Seguiu-se uma fase difícil, marcada por dívidas, pelo afastamento de amigos e, por confissão própria, pelo recurso às drogas como escape.
“Quando estamos sentados num lago de m**** a nadar até ao nariz, raramente alguém entra lá de joelhos e te dá a mão para te tirar dela.” Foi precisamente nesse momento que conheceu Mónica Franco.
Mónica Franco: o grande amor da sua vida
Mónica Franco é jornalista especializada em gastronomia, vinhos e turismo. Quando Ljubomir a conheceu num evento gastronómico, ela estava comprometida. ‘Ljubo’ esperou quatro anos. Ganhou coragem e convidou-a para jantar no novo 100 Maneiras, no Bairro Alto.
“A meio da refeição, vem um prato diferente para mim. Um foie gras de frutos vermelhos, que até hoje não esqueci. Quando pus a colher à boca, arrepiei-me dos pés à cabeça. Ele passou por mim e fez-me um sorriso. Estamos juntos até hoje“, conta Mónica.
Casaram-se e tiveram juntos um filho, Luca. Ljubomir tem ainda Mateus, nascido em 2006 de uma relação anterior, que terminou pouco depois do nascimento. Os dois rapazes cresceram a ver o pai no mato, em caravanas pelo Alentejo, a apanhar ouriços e a grelhar peixe, longe das câmaras e das polémicas da televisão.
Mónica tornou-se também no seu braço direito nos negócios e realizou o documentário Coração na Boca, em que os dois regressaram juntos a Sarajevo pela primeira vez. “Uma metralhadora aos 12 anos em vez de uma bicicleta. O mais difícil foi voltar a reviver isto tudo. Foi muito duro. Foi como um murro no estômago”, confessou Ljubomir sobre a viagem.
Televisão que o tornou famoso e polémico
Foram os programas de televisão que transformaram Ljubomir num fenómeno mediático. Pesadelo na Cozinha, na TVI, apresentou-o como o chef brutal que dizia verdades difíceis de engolir. Hell’s Kitchen, na SIC, consolidou a imagem de homem irreverente, frontal e sem papas na língua.
Mas a televisão trouxe também polémicas. Uma ex-concorrente do Hell’s Kitchen, Cândida Baptista, processou-o por alegado abuso sexual e moral. O chef contestou todas as acusações em tribunal e foi ilibado. A TVI avançou também com processo judicial, exigindo mais de 1,2 milhões de euros por alegada quebra de contrato.
Dois anos de pesadelo real
O ponto de viragem foi a perda da estrela Michelin em 2023, distinção que o 100 Maneiras ostentava desde 2021. A despromoção provocou quebra de faturação na ordem dos 40%, mergulhando o grupo em dificuldades sérias. Em abril de 2026, um violento incêndio destruiu o Carnal Gastrobar. Foi o sinal de que algo tinha de mudar.
Fim de ciclo, início de novo capítulo
Os três fundadores cessaram funções executivas no início de 2026. Em 8 de maio, o anúncio tornou-se público: os restaurantes passaram para as mãos do grupo Dhurba Subedi, liderado por Jamuna Subedi, Dhurba Sapana, Niraj Subedi e Kismita Subedi, com mais de cem espaços de restauração espalhados pelo mundo, incluindo o Las Ficheras e o UMA Marisqueira, em Lisboa.
Ljubomir tem passado cada vez mais tempo no Alentejo, ligado à terra e à natureza. “Noutras latitudes, de outras maneiras, com outros nomes, mas sempre sem medo”, prometeu na despedida. Portugal perdeu um ícone gastronómico. Mas Ljubomir Stanisic, aos 47 anos, promete que ainda não acabou.