Casados à Primeira Vista Ainda há quem procure amor na televisão?

Mais do que um reality show, Casados à Primeira Vista acaba por mostrar uma realidade desconfortável: há muita gente a querer amar, sem saber bem como.

Casados à Primeira Vista Ainda há quem procure amor na televisão?

Confesso que nunca fui grande fã de formatos quase milagrosos que prometem juntar duas pessoas e fazê-las viver felizes para sempre. Sempre me pareceu difícil acreditar que algo tão complexo como o amor pudesse nascer de uma fórmula aparentemente racional, construída por especialistas e testes de compatibilidade. O amor, tal como a amizade, não é matemático. Não segue regras exatas, não nasce de forma mecânica.

Ainda assim, não posso mentir: adoro Casados à Primeira Vista. E talvez o mais surpreendente seja precisamente o facto de o formato parecer, ano após ano, cada vez mais genuíno. Durante muito tempo, achei que a maioria dos candidatos a este tipo de programas não procurava verdadeiramente amor. Procurava visibilidade, validação, atenção ou até uma espécie de desculpa emocional para os fracassos amorosos anteriores. Afinal, se a experiência corresse mal, haveria sempre alguém a culpar: os especialistas.

Mas a verdade é que este programa tem-me feito rever essa ideia. Há concorrentes cuja postura transmite uma autenticidade difícil de fingir. João, Elisabete, Quinita, Andreia ou Vítor parecem-me exemplos claros de pessoas que procuram genuinamente estabilidade, companheirismo e uma relação saudável.

E isso diz muito sobre o momento em que vivemos. Ver estas histórias leva-me inevitavelmente a pensar em como encontrar o amor se tornou, para muitas pessoas, um verdadeiro desafio. Talvez pela influência das redes sociais, pela pressa constante, pela sensação de que há sempre algo melhor ao virar da esquina. Vivemos numa era paradoxal: nunca foi tão fácil conhecer pessoas, e talvez nunca tenha sido tão difícil criar ligações reais.

Na apresentação, Diana Chaves comentou connosco, jornalistas, uma das razões para o sucesso do formato. Segundo ela, o público identifica-se não apenas com a procura pelo amor, mas também com aquilo que aprende ao assistir. E faz sentido. Mais do que entretenimento, acaba por funcionar quase como um espelho social. Expõe padrões tóxicos, inseguranças, dificuldades de comunicação e dinâmicas relacionais que tantas vezes normalizamos no dia a dia sem sequer nos apercebermos.

Mostra-nos pessoas que querem desesperadamente amar e ser amadas mas que, muitas vezes, não sabem reconhecer compatibilidade, comunicar frustrações ou lidar com rejeição sem agressividade. Talvez seja precisamente por isso que o programa resulta tão bem. Não apenas porque queremos ver casais apaixonarem-se, mas porque nos revemos, inevitavelmente, em algumas das suas falhas e expectativas.

Estou a torcer por vários casais, é verdade. Mas, no fundo, mesmo que nem todos resultem, há algo de positivo neste formato. Recorda-nos uma coisa essencial: o amor não devia ser vivido em guerra, nem em constante tensão. Deveria ser leve, respeitador, seguro. E só isso já é uma boa lição.

Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: DR

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