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Pedro Bianchi Prata “A Maria não precisa de provar mais nada a ninguém” [Entrevista Exclusiva]

O piloto, de 51 anos, está a preparar mais um Dakar, desta vez com uma moto elétrica, e não esconde o entusiasmo com o desafio. Feliz também no plano pessoal, fala do desejo de aumentar a família e não poupa elogios à companheira, Maria Botelho Moniz, o seu “grande pilar”.

Pedro Bianchi Prata

Já está a preparar o Dakar 2027 e este ano com uma novidade: quer competir com uma moto 100% elétrica. Como estão a correr os testes?

Muito bem. Estamos a desenvolver a moto toda de raiz para ter mais alcance, porque as motas elétricas ainda estão muito no início, mas está a ser muito giro. Estamos a trabalhar há pouco tempo, mas a fábrica tem muitos meios e engenheiros só a trabalhar neste projeto. Agora, por exemplo, vêm de propósito da Eslovénia para esta corrida que nós temos cá e trazem umas baterias novas com maior capacidade, que vamos testar durante a corrida.

E o que é que pode correr mal?

Eu acho que nada pode correr mal, porque a expectativa desta corrida é só testar e preparar o Dakar. Mesmo que as baterias não sejam as indicadas, já ficamos a saber que o caminho não é por ali e testamos novas soluções. Também temos uma empresa portuguesa, que é a Edmtech, que também está a desenvolver a parte das baterias, o que me deixou muito contente.

Então o grande desafio é que a moto tenha mais autonomia para conseguir concluir a prova, é isso?

Sim, a moto de base é muito boa, tem bons travões, boas suspensões, é muito fácil de andar, mas, como eu disse, as baterias nas motos elétricas ainda estão muito pouco desenvolvidas. É o problema dos carros também. Já há carros com autonomia de 700 km, mas com baterias gigantes e numa moto não podemos ter uma bateria tão grande. Mesmo assim, agora a bateria pesa 41 kg e tem uma autonomia muito reduzida. E nós para o Dakar temos que ter à volta de 140 km. Neste momento, estamos com 50 km. Agora com estas novas baterias acho que vamos subir para os 70 km, 80 km. O Dakar é em janeiro de 2027 e até novembro temos tudo fechado.

E para si, enquanto piloto, é igual conduzir a moto elétrica?

É bastante diferente. Eu andei 34 anos numa moto a combustão, a gasolina. Ouvimos o barulho, temos as mudanças. A moto elétrica não tem mudanças, é como se fosse uma scooter e temos os travões nas mãos. Claro que a base da condução é exatamente a mesma.

Se tudo correr bem, vai fazer-se história, no Dakar…

A minha vontade é fazê-lo e fazê-lo bem. É óbvio que o Dakar é uma corrida muito longa e muitas coisas podem acontecer pelo meio. Eu já terminei 12 vezes o Dakar, o que me dá alguma experiência e calma para encarar um desafio como este. Mas é óbvio que com a moto elétrica há muitos imprevistos, embora haja um regulamento diferente. Mas o Dakar é sempre uma prova dura, são 12 dias de corrida, há muito cansaço acumulado.

Esta parceria também fez despertar em si maior consciência ambiental ou já era preocupado com esses assuntos?

Eu sempre tive consciência ambiental e que temos que preservar o nosso ambiente e sei que as motos a combustão fazem mais poluição. Mas nunca tive tanta consciência como agora e quando a Moeve, que foi o principal impulsionador, no ano passado, falou comigo para fazermos este projeto com a moto elétrica, aí é que comecei a perceber a importância que isto tem. As motos elétricas não vão substituir as motos a gasolina, mas há um espaço para elas.

Mostrou um vídeo do seu filho a dizer “moto elétrica”. Ele fica entusiasmado com as suas coisas?

Sim, ele gosta muito de andar comigo de moto e a preferida dele é a elétrica porque não faz muito barulho e ele gosta.

Ele é o seu grande fã?

Acho que ele não tem muita consciência do que é que eu faço. Mas ele sabe que o pai vai para as corridas e adora vir para o Offroad e estar no meio das motos, brincar com as ferramentas e viver um bocadinho o que é o meu dia a dia.

Gostava que ele seguisse esta área?

Não. Gostava que um dia fizéssemos um passeio todo o terreno os três, porque a Maria também anda muito bem. Mas acho que é uma vida de tantos sacrifícios e tem de se pôr tantas coisas de lado para se dedicar 100% à competição, que eu acho que ele tem muito mais que fazer do que isto.

É uma vida demasiado dura mas ainda assim o Pedro continua entusiasmado e a vibrar.

Eu já não me vejo a fazer outra coisa. Eu entrei na faculdade, estava a estudar Medicina Veterinária, e depois as coisas começaram a evoluir e tive de fazer uma opção e não me arrependo nada. Mas é uma vida de muito trabalho, muita dedicação, especialmente se se quer ganhar dinheiro e se se quer ser um atleta de alta competição, como em qualquer desporto. Não me lembro de trabalhar menos de dez horas por dia ou sempre mais de oito horas. E como eu gosto tanto do que faço e são coisas tão diferentes ao mesmo tempo que, às vezes, nem encaro como trabalho. É treinar, andar de moto, preparar a logística para as corridas, andar a treinar outros pilotos, estar ao computador…

E acha que o facto de ter sido pai fez mudar a forma como encara a profissão?

Não. Eu sempre fui um piloto muito consciente. Nunca corri muitos riscos nem tive grandes lesões. Tenho consciência do perigo que é andar de moto e à velocidade que nós andamos. E por essa razão nunca tive muitos medos. É óbvio que penso muitas vezes nele e tenho vontade de voltar o mais rápido possível para casa para estar com ele. Mas em termos de performance desportiva não alterou nada.

Passa muito tempo fora. Essa é a parte mais difícil?

Sim, sem dúvida. As corridas ocupam muito tempo. Acima de tudo porque são longe. Seja provas do Campeonato Nacional em que corremos o País todo ou provas do Campeonato do Mundo em que vamos para outros países e temos que ir de avião… As corridas no deserto são sempre do outro lado do mundo. E agora estar sem ele custa muito.

Qual é a reação do Vicente quando regressa?

Ele fica muito contente. “O pai chegou, o pai estava nas motas”.

E a Maria como é que encara a sua profissão?

A Maria é um pilar muito grande porque quando eu não estou, as coisas ficam um bocadinho mais em cima dela, embora nós consigamos conjugar bem as coisas porque ela também tem o trabalho dela e quando ela precisa eu também estou sempre cá. Acho que entre os dois vamos equilibrando a nossa vida para conseguirmos fazer tudo.

Mas quando está em corridas a Maria fica ansiosa?

Eu acho que ela já está muito mais habituada. No início, era mais difícil. Em todas as corridas há um tracking que mostra o nosso percurso e ela via sempre. Agora vai olhando… Acho que já percebeu que pode confiar mais. Claro que há um fator de risco mas é um risco controlado.

Leia esta matéria na íntegra na sua NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas

Texto: Vânia Nunes; Fotos: Tito Calado e Adriana Lino

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