Entrevista exclusiva a Henry Galsky: O rosto da notícia no coração do conflito
Entrevista exclusiva com Henry Galsky, correspondente da CNN Portugal no Médio Oriente. O jornalista aborda a experiência na Faixa de Gaza, o combate às deepfakes e a crueza do quotidiano no coração do conflito.
No caos da guerra, onde o som das sirenes dita o ritmo da sobrevivência, a voz de Henry Galsky surge como porto de abrigo para o rigor informativo. Correspondente da CNN Portugal no Médio Oriente, Galsky tornou-se presença familiar nos ecrãs dos portugueses, relatando o inimaginável com uma serenidade que desafia a própria natureza do conflito.
“Tento separar a forma como atuo profissionalmente da minha vida pessoal”
Em 2025, foi um dos poucos jornalistas a conseguir cruzar a fronteira da Faixa de Gaza, trazendo com ele não apenas imagens de destruição, mas o peso de uma realidade que as câmaras raramente captam na totalidade. Entre o equipamento pesado e o perigo iminente, viveu episódios que roçam o inverosímil – como o telemóvel perdido em pleno terreno de guerra e recuperado graças ao gesto inesperado de uma soldada israelita.
Nesta entrevista exclusiva ao Portal de Notícias da Impala, Henry Galsky afasta o romantismo frequentemente associado ao “repórter de guerra” e fala-nos da crueza do seu ofício. Da luta contra a desinformação e as deepfakes de inteligência artificial à marca indelével deixada pelas vítimas do 7 de outubro, o jornalista revela como mantém a “higiene informativa” e a isenção necessárias para narrar uma das maiores tragédias do nosso século.
O peso da responsabilidade e a segurança
Henry, já interrompeu diretos na CNN Portugal devido a alertas de mísseis. Como é que um jornalista consegue manter a clareza analítica quando o instinto de sobrevivência é posto à prova em escassos segundos?
Ah, isso já aconteceu algumas vezes. Mas eu digo o seguinte: tento separar a forma como atuo profissionalmente da minha vida pessoal. Sempre. Então, por alguma razão, consigo manter-me muito focado, mesmo em situações extremas, pelo senso profissional, realmente. É algo que desenvolvi ao longo do tempo.
Em 2025, foi um dos poucos jornalistas a entrar na Faixa de Gaza. Que pormenores do quotidiano naquela zona de exclusão é que as câmaras não conseguem captar, mas que marcam a memória de um repórter?
Foi uma situação muito específica, porque foi a primeira vez que houve autorização para entrar na Faixa de Gaza. É uma região onde não há muitos moradores, muitos palestinianos. Portanto é uma zona muito mais focada em armazéns, depósitos de alimentos… Mas foi possível ver o estado de destruição do local por causa da guerra.
É difícil imaginar o processo de reconstrução diante de tanta destruição e perceber como vai ser essa reconstrução menos do ponto de vista da engenharia, mas mais do ponto de vista de um futuro político capaz de garantir algum tipo de estabilidade – tanto para israelitas quanto para palestinianos.
Sendo freelancer (entretanto contratado pela CNN Portugal), como gere a sua própria segurança e logística em comparação com os correspondentes que viajam integrados em grandes equipas internacionais?
Atualmente tenho de facto contrato com a CNN Portugal, mas trabalho sozinho. O tempo todo. Como essa foi a realidade com a qual tive de acostumar-me, tornou-se habitual para mim. O meu problema hoje, do ponto de vista logístico, tem muito mais que ver com a minha incapacidade de carregar várias coisas ao mesmo tempo. Confesso que tenho esse problema. Tenho sempre medo de esquecer o equipamento… Posso até contar uma história.
Quando estive na Faixa de Gaza, em 2025, estava com o colete à prova de bala, que é muito pesado, o capacete, que também é muito pesado, a mochila com carregadores de telemóveis, com o próprio microfone, o tripé a partir do qual faço as entradas e o telemóvel da CNN Portugal, que me serve de câmara. E foi muito difícil porque quando voltei para o carro para regressar Jerusalém e devolver o colete da CNN Internacional, reparei que não tinha o telemóvel.
“[…] recebi uma chamada de um número desconhecido. Era uma soldado israelita que estava na Faixa de Gaza”
Fiquei desesperado. Estive meia hora à procura dentro do carro. Não encontrei. Percebi que tinha perdido o telemóvel. Não sabia onde. A CNN Portugal entendeu a situação e recebi autorização para comprar outro telefone. Não cheguei a comprá-lo porque um dia antes de comprá-lo, recebi uma chamada de um número desconhecido. Era uma soldado israelita que estava na Faixa de Gaza.
Encontrou o telemóvel e descobriu o meu número de telefone particular. Ligou-me… Ela serve numa base militar no sul de Israel e salvou a minha vida. No dia seguinte, fui lá e recuperei o telemóvel com o ecrã partido. O ecrã continua partido e eu continuo a trabalhar com ele. É uma recordação desse dia em que perdi o telemóvel na Faixa de Gaza.
A guerra das narrativas e a desinformação

O seu projeto Israel de Fato nasceu para combater a desinformação. No atual conflito, sente que a maior batalha se trava no terreno militar ou na perceção da opinião pública mundial?
Acho essa pergunta excelente. Hoje em dia, os conflitos têm características muito distintas em relação aos do século XX, por exemplo. A guerra de informação, a guerra de narrativas, é tão importante quanto as batalhas militares. Tanto Israel, quanto o Irão ou os Estados Unidos estão envolvidos nisso. O Hezbollah, o Hamas…
“O Irão divulgou uma série de vídeos como se Telavive estivesse completamente destruída, o que não é verdade”
Agora, em relação a este conflito atual com o Irão, há um elemento novo, que é a tecnologia da inteligência artificial. Não só no campo de batalha, mas na produção de vídeos. O Irão divulgou uma série de vídeos como se Telavive estivesse completamente destruída, o que não é verdade. Havia também esta polémica em torno do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, sobre se ele estava vivo ou se estava morto.
Do ponto de vista jornalístico, não tinha nenhum indício de que ele estivesse morto. Mas especialistas em inteligência artificial garantiam que os vídeos são de inteligência artificial.
Como é que garante a isenção necessária perante o público português, vivendo e relatando a partir de um dos lados do conflito? Existe algum método de “higiene informativa” que aplique no seu dia-a-dia?
Com certeza. O meu compromisso é sempre com o jornalismo. Tenho isso muito claro para mim e é assim que me pauto, que eu determino a minha forma de trabalhar. Converso com fontes de todos os lados envolvidos neste conflito. Com todos os lados que possa imaginar-se. Inclusive com lados que não posso sequer nomear.
Acho que é assim que construo o meu trabalho. Procuro, para além de dar as informações, trazer contexto, porque isso é muito importante. Num mundo de tanta informação e muita guerra de narrativa, trazer contexto é fundamental. Até porque o Médio Oriente é repleto de informação, de acontecimentos que, muitas vezes, descontextualizadas, perdem o significado ou têm o significado compreendido de forma equivocada.
Sente que o público em Portugal tem uma visão distorcida da realidade em Israel e nos territórios palestinianos por falta de correspondentes permanentes na região?
Sinceramente, não tenho elementos para analisar qual é a visão do público português. A minha forma de trabalhar é independente do público para o qual falo. Trabalho da mesma maneira para o Brasil, para Portugal, para Angola, para Moçambique, para qualquer país onde trabalho.
Pauto-me nesse compromisso com o jornalismo. Em relação especificamente ao público português, como não vivo em Portugal e a minha interação com o público português é mais focada nos meus colegas de trabalho, não tenho, infelizmente, capacidade de análise em relação a esse tópico…
“Se for possível, quero manter-me correspondente para o resto da vida”
Carreira e evolução do conflito
Cobriu a Segunda Guerra do Líbano em 2006. Quais são as diferenças mais gritantes que nota na forma como a guerra é feita e reportada 20 anos depois?
Em 2006, havia muito menos informação disponível e muito menos entendimento dos lados em conflito – Israel e Hezbollah, os atores em disputa naquele momento. Em comparação com a interação com a comunicação social, com as redes sociais que naquele momento não existiam, hoje vejo de forma muito clara que todos os atores investem em peso em comunicação e redes sociais para atingir os seus objetivos estratégicos para além dos militares, no terreno.
O termo “correspondente de guerra” é muitas vezes romantizado. Para si, o que é que define verdadeiramente este ofício no século XXI?
Bom, como é o meu trabalho diário, defino-o como um trabalho tão importante quanto qualquer outro, sem fazer uma avaliação do que é mais importante e menos importante. Sou apaixonado pelo meu trabalho. Se for possível, quero manter-me correspondente para o resto da vida. Portanto, não vejo no termo nada de romântico, porque estou realmente muito envolvido no trabalho. Para mim, é só o trabalho, realmente.
Qual foi o momento mais desafiante da sua colaboração com a CNN Portugal até à data, não apenas pelo perigo físico, mas pelo peso emocional da notícia que teve de dar?
Devo dizer que, depois do 7 de outubro de 2023, tive uma missão jornalística que me impus como jornalista; tentar esclarecer ao máximo os factos. Por isso, tive de ver imagens muito difíceis. Certamente não vou esquecer-me dessas imagens.
Por exemplo, ver corpos de mulheres israelitas violentadas por terroristas do Hamas. É o tipo de imagem que não estava preparado para ver. Quando houver possibilidade de reentrar na Faixa de Gaza e lidar com as pessoas, haverá outras imagens muito difíceis. Mas de tudo que vivi até agora, isso foi o mais difícil.