O que é o El Niño, fenómeno que contribui para temperaturas extremas em Portugal
O que é o El Niño? Na rubrica ‘Impala Explica’, desvendamos como este fenómeno climático aquece o Pacífico e altera o tempo em Portugal e no mundo. Entenda as causas e as consequências.
O El Niño é um fenómeno climático natural que ocorre, em média, a cada dois a sete anos. Caracteriza-se pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na sua zona equatorial (perto da costa da América do Sul).
Como acontece o El Niño
Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste, empurrando a água quente para a Ásia e permitindo que águas frias e profundas subam na costa do Peru. Quando ocorre o El Niño, estes ventos enfraquecem ou mudam de direção. Isto faz com que a água quente se desloque para leste, acumulando-se junto à América do Sul.
Principais consequências mundiais
Este aquecimento do oceano altera a circulação da atmosfera e provoca mudanças drásticas no clima global:
Chuvas intensas: Provoca inundações severas na costa oeste da América do Sul e no sul dos Estados Unidos.
Secas extremas: Causa períodos de seca prolongada na Austrália, Indonésia, Sudeste Asiático e em partes de África e do Brasil.
Aumento da temperatura global: O calor libertado pelo oceano para a atmosfera faz com que a temperatura média do planeta suba, batendo frequentemente recordes de calor.
Impacto na pesca: A subida da temperatura da água impede a subida de nutrientes, o que afasta os peixes e prejudica a economia das regiões costeiras do Pacífico.
Em Portugal, o efeito é indireto e menos previsível, mas pode estar associado a invernos mais chuvosos ou a alterações na estabilidade das correntes de ar que afetam a Europa.
El Niño e La Niña, duas faces da mesma moeda
Para compreender o sistema climático do nosso planeta, é essencial olhar para o El Niño e a La Niña como as duas faces da mesma moeda. Ambos fazem parte de um ciclo natural chamado ENSO (El Niño-Oscilação Sul), mas funcionam de formas opostas.
Enquanto o El Niño é a fase quente, a La Niña é a fase fria do ciclo. A principal diferença reside na força dos ventos alísios (que sopram de este para oeste junto ao equador):
No El Niño: Os ventos alísios enfraquecem. A água quente que deveria estar na Ásia “escorre” de volta para a costa da América do Sul. O oceano fica muito mais quente do que o normal no Pacífico Oriental.
Na La Niña: Os ventos alísios tornam-se muito mais fortes do que o habitual. Eles empurram a água quente com força para a Ásia, fazendo com que as águas profundas e gélidas do fundo do oceano subam à superfície na costa americana.
As consequências em Portugal e na Europa
Na Europa, os efeitos são mais subtis e indiretos, mas ainda assim percetíveis:
Durante o El Niño: Existe uma tendência para invernos mais húmidos e chuvosos no Sul da Europa (incluindo Portugal) e invernos mais secos e frios no Norte da Europa.
Durante a La Niña: O padrão inverte-se frequentemente. O Sul da Europa e o Norte de África podem enfrentar períodos de seca mais prolongados, enquanto o Norte da Europa recebe mais tempestades e precipitação.
O impacto na biodiversidade marinha
A diferença na temperatura da água altera drasticamente a vida nos oceanos:
El Niño (Mau para a pesca): A água quente à superfície impede a subida de nutrientes do fundo (ressurgência). Sem nutrientes, o plâncton escasseia e os peixes (como a sardinha e a anchova) desaparecem ou morrem.
La Niña (Bom para a pesca): A subida de águas frias traz uma enorme quantidade de nutrientes para a superfície. Isto cria um banquete para a vida marinha, tornando as águas do Pacífico extremamente produtivas.
Atualmente, em 2026, estamos a vigiar de perto a transição de um período de neutralidade para um possível novo El Niño, o que poderá anular o alívio térmico que a La Niña trouxe nos últimos tempos.
O reflexo do clima no carrinho de compras em Portugal
O preço dos alimentos em Portugal não depende apenas das colheitas no Alentejo ou em Trás-os-Montes. Como vivemos num mercado globalizado, os fenómenos que ocorrem no Pacífico têm um efeito dominó que acaba por encarecer produtos essenciais nas nossas prateleiras. Com o provável regresso do El Niño em 2026, a pressão sobre a inflação alimentar poderá intensificar-se devido à instabilidade nas grandes regiões produtoras.
Existem três canais principais através dos quais estas alterações climáticas fazem subir os preços no nosso país:
Cereais e rações animais: A Argentina e o Brasil são grandes exportadores de milho e soja. As secas ou inundações extremas nestas regiões reduzem a oferta mundial, fazendo disparar o preço das rações. Isto reflete-se diretamente no custo da carne de porco, de aves e dos ovos nos supermercados portugueses.
Produtos tropicais e óleos: O Sudeste Asiático, fortemente fustigado por secas durante o El Niño, é o principal produtor de óleo de palma e café. A quebra nestas colheitas faz subir o preço de quase todos os produtos processados, desde bolachas a detergentes, e claro, o nosso café diário.
Arroz e açúcar: A Índia e a Tailândia costumam restringir as exportações de arroz quando as monções falham devido ao clima. Portugal, sendo um dos maiores consumidores de arroz da Europa, sente este impacto de forma quase imediata na fatura mensal das famílias.
O fator transporte e a energia
Além da produção, o clima afeta a logística. Em anos de El Niño ou La Niña extremos, canais estratégicos – como o do Panamá – podem sofrer com a falta de água (seca) ou excesso de tempestades, atrasando a chegada de mercadorias e encarecendo o frete marítimo. Quando o transporte fica mais caro, todos os produtos importados sofrem um ajuste de preço para o consumidor final.
Em Portugal, embora a produção interna de azeite ou vinho possa ter as suas próprias variações locais, o aumento do custo dos combustíveis e da energia – muitas vezes influenciado por invernos mais rigorosos no hemisfério norte durante a La Niña – acaba por ser o golpe final que impede a descida dos preços nos pontos de venda.
Estratégias de poupança no supermercado
A organização é a maior aliada da carteira. Em períodos de inflação alimentar, pequenos ajustes nos hábitos de consumo podem representar uma poupança de dezenas de euros ao final do mês.
Planear o menu semanal com rigor: Antes de sair de casa, verifique a despensa e o congelador. Criar um plano de refeições evita compras por impulso e, acima de tudo, o desperdício de alimentos que acabam por se estragar.
Privilegiar produtos de época e locais: Os alimentos produzidos em Portugal, especialmente os da época, sofrem menos com os custos de transporte internacional e com as crises agrícolas no outro lado do mundo. Além de serem mais baratos, são mais frescos e nutritivos.
Apostar nas marcas brancas ou de distribuição: A diferença de preço entre uma marca líder e uma marca própria de supermercado pode chegar aos 30% ou 40% em produtos básicos como arroz, massa, leite e conservas, mantendo muitas vezes uma qualidade equivalente.
Monitorizar folhetos e aplicações de descontos: Utilize ferramentas digitais para comparar preços entre os principais supermercados em Portugal. Aproveite as promoções de ‘leve 2 pague 1’ em produtos não perecíveis (como detergentes ou conservas) para criar um pequeno stock de segurança.
Alternativas inteligentes na cozinha
Mudar a forma como cozinhamos e escolhemos as proteínas pode ser a chave para manter o equilíbrio financeiro sem abdicar da saúde.
Substituir proteínas animais por leguminosas: O feijão, o grão-de-bico e as lentilhas são fontes de proteína muito mais económicas do que a carne ou o peixe fresco. Introduzir dois ou três dias vegetarianos por semana reduz drasticamente a fatura do talho.
Cozinhar em grandes quantidades (batch cooking): Rentabilize a energia do fogão ou do forno cozinhando para vários dias. Congelar doses individuais evita que as sobras se estraguem e previne a tentação de encomendar comida pronta, que é sempre mais cara.
Reduzir o consumo de produtos processados: Bolachas, refrigerantes e refeições pré-preparadas são os primeiros a subir de preço quando as matérias-primas (como o açúcar ou o óleo de palma) escasseiam devido ao El Niño. Optar por alimentos base e cozinhar de raiz é sempre mais barato.
Aproveitamento integral dos alimentos: Utilize os talos dos legumes para sopas e as cascas de fruta para infusões ou bolos. Em Portugal, estima-se que cada família deite fora centenas de euros por ano em comida que poderia ter sido aproveitada.
Sugestões de refeições amigas da carteira
Estas receitas focam-se em alimentos base que Portugal produz em abundância ou que permitem um grande rendimento por dose, combatendo a inflação alimentar de forma saborosa.
Sopa de feijão com couve e massa: É uma das refeições mais completas e baratas da gastronomia portuguesa. O feijão seco, comprado em grandes quantidades, é uma excelente fonte de proteína que não sofre as oscilações de preço da carne fresca. Adicionar massa de cotovelos e couve galega cria uma refeição que sacia e aquece toda a família.
Arroz de feijão ou de lentilhas com ovos escalfados: O ovo continua a ser a proteína animal mais acessível no mercado nacional. Ao juntar leguminosas ao arroz, cria-se uma proteína completa. É um prato de conforto que utiliza ingredientes de despensa que duram meses sem se estragarem.
Tortilha de batata e cebola: A batata e a cebola são a base da nossa agricultura e os seus preços são habitualmente estáveis. Uma tortilha farta, feita com ovos, batata e um pouco de salsa, serve várias pessoas e pode ser consumida quente ao jantar ou fria num almoço de marmita para o trabalho.
Bolonhesa de lentilhas ou soja granulada: Substituir metade (ou a totalidade) da carne picada por lentilhas castanhas ou soja granulada numa massa bolonhesa reduz o custo do prato em mais de 50%. O sabor é absorvido pelo molho de tomate e o valor nutricional, especialmente em fibra, aumenta significativamente.
Pataniscas de legumes com arroz de tomate: Em vez das tradicionais pataniscas de bacalhau, pode utilizar sobras de vegetais, como cenoura ralada, curgete ou alho-francês. Acompanhadas por um arroz de tomate bem malandrinho, constituem uma refeição tipicamente portuguesa e muito económica.
Truques para aumentar o rendimento das receitas
Cozinhar de forma inteligente permite que os mesmos ingredientes durem mais tempo e rendam mais doses:
Ralar os vegetais: Ao ralar cenoura ou curgete e misturá-las em refogados, almôndegas ou hambúrgueres caseiros, aumenta o volume da comida sem precisar de gastar mais carne ou peixe.
Aproveitar a água da cozedura: A água onde coze os legumes é rica em nutrientes e sabor. Utilize-a como base para o arroz ou para a sopa, evitando o gasto extra com caldos industriais em cubo, que são mais caros e menos saudáveis.
Transformar o pão duro: O pão alentejano ou de mistura que sobrou pode ser transformado em migas, açordas ou rabanadas de forno. Em Portugal, o pão é um alimento sagrado que nunca deve ser desperdiçado, sendo a base de muitas refeições baratas.
Secção de mercearia seca e despensa
Estes produtos têm uma validade longa e são a base das receitas económicas sugeridas. Comprar em embalagens familiares de 1 kg costuma baixar o preço por dose.
Arroz de grão longo ou carolino: Essencial para o arroz de feijão, arroz de tomate ou acompanhamento de pataniscas.
Massa de cotovelos ou esparguete: Ideal para a sopa de feijão ou para a bolonhesa económica.
Feijão seco (encarnado ou manteiga): Muito mais barato do que o feijão em lata. Deve ser demolhado e cozido em casa para render várias refeições.
Lentilhas castanhas ou verdes: Uma alternativa à carne picada com um custo por dose imbatível.
Soja granulada (opcional): Excelente para misturar com carne picada e fazer render os pratos de massa.
Polpa de tomate e azeite: Base para todos os refogados e molhos.
Farinha de trigo: Necessária para a polme das pataniscas de legumes.
Secção de frescos: hortofrutícolas
Estes vegetais são a espinha dorsal da cozinha portuguesa e, por serem produzidos localmente em larga escala, mantêm preços mais acessíveis.
Batatas (saco de 5 kg): A base da tortilha e da sopa, sendo um dos alimentos mais versáteis e baratos.
Cebolas e alhos: Indispensáveis para o sabor de qualquer prato e com excelente durabilidade.
Cenouras: Podem ser raladas para render a carne ou usadas como base de sopas e pataniscas.
Couve galega ou coração: Vegetais de folha verde que dão volume e nutrientes à sopa de feijão.
Tomates maduros: Para o arroz malandrinho e molhos caseiros.
Salsa ou coentros frescos: Ervas aromáticas que dão vida aos pratos simples sem custarem muito.
Secção de frescos: talho, peixaria e laticínios
Nesta secção, o foco deve estar na proteína de alto valor biológico com o menor custo possível.
Ovos (embalagem de 12 ou 24): A estrela da tortilha e dos ovos escalfados. É a proteína mais barata e nutritiva do mercado.
Carne picada (mistura de porco e vaca): Compre apenas a quantidade necessária para misturar com as lentilhas ou a soja.
Leite ou bebidas vegetais de marca branca: Essenciais para a confeção de algumas massas e pequenos-almoços.
Secção de padaria
Pão de mistura ou alentejano: Se comprar um pão grande e de consistência firme, poderá aproveitá-lo durante vários dias para sopas, açordas ou migas.