Polilaminina: A proteína brasileira que devolve movimentos a cães paralisados

Conheça a polilaminina, a proteína desenvolvida pela UFRJ que permitiu a cães paralisados voltar a andar. Saiba tudo sobre os testes em humanos aprovados pela ANVISA.

A ciência deu um passo de gigante na recuperação de lesões medulares, uma das condições mais limitantes tanto na medicina veterinária como na humana. No centro desta revolução está a polilaminina, uma proteína desenvolvida nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pela equipa da professora Tatiana Coelho-Sampaio. Este biomaterial, extraído de placentas e modificado para criar uma estrutura tridimensional, funciona como um guia biológico que permite aos neurónios encontrar o caminho para a regeneração. O sucesso desta técnica foi recentemente validado por um estudo com cães paralisados que recuperaram a sensibilidade e a capacidade de caminhar.

O caso de Teodoro, um cão de pequeno porte do Rio de Janeiro, tornou-se o rosto desta esperança. Após sofrer uma paralisia das patas traseiras devido a uma lesão grave na coluna, o animal foi submetido a uma aplicação direta de polilaminina no local da lesão. Ao contrário de outros tratamentos que exigem intervenções complexas, esta proteína atua como um andaime molecular, preenchendo o espaço vazio deixado pela lesão e estimulando o crescimento dos axónios. Dos seis cães acompanhados no estudo, quatro apresentaram melhorias motoras significativas, resultado que desafia o prognóstico tradicional de paralisia irreversível.

Do laboratório para os hospitais: A autorização da ANVISA

Professora Tatiana Coelho-Sampaio, responsável pela equipa que desenvolveu a proteína polilaminina
Professora Tatiana Coelho-Sampaio, responsável pela equipa que desenvolveu a proteína polilaminina

A transição deste tratamento para o uso em seres humanos acaba de receber um impulso decisivo. Em janeiro de 2026, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou oficialmente o início dos ensaios clínicos de fase 1. Esta etapa inicial é crucial para avaliar a segurança da substância em humanos e será realizada em parceria com a indústria farmacêutica. O investimento, que já ultrapassa os 30 milhões de reais (perto de 5 milhões de euros), permitiu a produção da proteína em escala industrial sob rigorosas normas de esterilidade, algo indispensável para que o tratamento possa, no futuro, ser disponibilizado em larga escala nos hospitais.

Diferente de terapias com células-tronco, que requerem laboratórios altamente especializados e manipulação personalizada, a polilaminina apresenta a vantagem de poder ser mantida em congeladores comuns. Isto significa que, em caso de trauma agudo, o paciente poderá receber a injeção poucas horas após o acidente, aumentando exponencialmente as hipóteses de recuperação antes de a cicatriz medular se tornar intransponível. Esta vantagem logística coloca o Brasil na vanguarda da biotecnologia mundial.

A realidade clínica em Portugal

Em Portugal, a abordagem a lesões medulares tem-se focado maioritariamente na reabilitação intensiva e em tecnologias de neuroestimulação. No entanto, avanços como este abrem portas para uma nova era de tratamentos biológicos. A introdução de uma solução injetável que regenera o tecido nervoso poderá complementar as terapias comuns, oferecendo uma solução estrutural onde antes existia apenas adaptação à deficiência.

Embora o entusiasmo seja legítimo, os investigadores reforçam que o processo em humanos será gradual. A primeira fase foca-se na segurança e não na cura imediata. Contudo, os dados obtidos com o cão Teodoro e os restantes animais do estudo piloto são provas de conceito robustas de que o sistema nervoso central tem capacidade de regeneração muito superior àquela que se acreditava ser possível há apenas uma década.

Luís Martins; WiN

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