Caso Epstein: Caixa de Pandora abre-se em França e a Justiça de Paris faz apelo dramático a vítimas
As autoridades francesas intensificam a pressão sobre a rede do predador sexual norte-americano. Com novas frentes de investigação abertas por tráfico humano e fraude fiscal, o Ministério Público de Paris quer ouvir quem foi silenciado durante décadas.
A sombra de Jeffrey Epstein continua a pairar sobre a Europa, e desta vez o epicentro é Paris. Num movimento judicial sem precedentes, a Procuradora de Paris, Laure Beccuau, emitiu um apelo público para que eventuais vítimas do falecido financista e dos seus cúmplices em solo francês se apresentem às autoridades. Este passo surge após a recente divulgação de documentos confidenciais nos Estados Unidos que expuseram uma teia de influências que liga figuras proeminentes da sociedade francesa ao escândalo.
A ligação francesa: Jean-Luc Brunel e o agenciamento de modelos
Um dos nomes centrais nesta investigação é o de Jean-Luc Brunel, o antigo agente de modelos francês e fundador da agência Karin Models. Brunel, que foi encontrado morto na sua cela em Paris em 2022 enquanto aguardava julgamento, é apontado como o principal “fornecedor” de Epstein.
As autoridades acreditam que a rede de Brunel utilizava o pretexto de carreiras na moda para atrair jovens, muitas delas menores, para o círculo de abusos de Epstein. Recentemente, novos ficheiros revelaram que Brunel teria inclusivamente ramificações no Brasil, facilitando encontros sexuais durante viagens do bilionário.
Escândalo sem fim
Agosto de 2019: Jeffrey Epstein é encontrado morto na sua cela em Nova Iorque. Pouco depois, a justiça francesa abre uma investigação preliminar para apurar crimes cometidos em França.
Dezembro de 2020: Jean-Luc Brunel é detido no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, quando tentava embarcar para o Senegal. É acusado de violação de menores e tráfico de seres humanos.
Fevereiro de 2022: Brunel morre por enforcamento na prisão de La Santé, em Paris. A investigação contra ele é encerrada, mas o inquérito sobre a rede de cúmplices permanece aberto.
Janeiro/Fevereiro de 2026: A divulgação de uma nova vaga de documentos nos EUA (os “Epstein Files”) revela nomes de diplomatas franceses e figuras da elite, como Fabrice Aidan, levando a Justiça de Paris a criar uma equipa especial de cinco procuradores para analisar os dados.
O padrão do silêncio
O caso Epstein guarda semelhanças perturbadoras com outros escândalos de abuso em círculos de elite, como o caso do produtor de Hollywood Harvey Weinstein ou o escândalo de Ghislaine Maxwell, condenada nos EUA por recrutar menores. Em todos eles, o uso de poder, dinheiro e influência serviu para comprar o silêncio das vítimas durante anos. Em Portugal, a memória recente remete-nos para processos complexos de redes de abuso que, tal como em França, enfrentaram dificuldades devido à prescrição de crimes.