Dias de calor húmido perigoso duplicaram desde 1970 por causa das alterações climáticas
Os dias de calor húmido perigoso mais do que duplicaram no mundo desde a década de 1970, passando de uma média de 10 para 23 dias por ano. A causa principal são as alterações climáticas provocadas pela atividade humana, que já contribuem para quase dois terços de todos esses dias, revela um novo relatório da Climate Central.
Um novo relatório da Climate Central divulgado hoje alerta para uma tendência que está a agravar-se em todo o mundo: os dias de calor húmido perigoso mais do que duplicaram desde a década de 1970, passando de uma média de 10 dias por ano para 23 dias por ano. A análise abrangeu 961 cidades em todo o mundo e concluiu que as alterações climáticas são agora o principal fator desta evolução, contribuindo para quase dois terços de todos esses dias.
O que é o calor húmido perigoso e por que é diferente do calor seco
Nem todo o calor é igual. A distinção entre calor seco e calor húmido é fundamental para perceber por que é que este fenómeno é tão preocupante para a saúde humana.
Quando o ar é quente mais seco, o suor evapora rapidamente da pele e arrefece o corpo de forma eficaz. É o mecanismo de termorregulação natural do organismo humano. Mas quando a temperatura é alta e a humidade também é elevada, o suor não consegue evaporar porque o ar já está saturado de humidade.
O resultado é que o calor húmido perigoso se acumula internamente no corpo, sem saída. O organismo sobreaquece, perde água rapidamente e fica incapaz de se arrefecer por si próprio.
O relatório da Climate Central baseia-se na chamada “temperatura de bolbo húmido”, medida que combina calor e humidade para avaliar o stress fisiológico real do corpo humano, e não apenas a temperatura do ar. Esta é a razão pela qual dias aparentemente amenos, com temperaturas moderadas mas humidade elevada, “podem ser muito mais perigosos do que aparentam”, como alerta o documento.
As consequências para a saúde
Quando a humidade impede o corpo de arrefecer pela transpiração, os efeitos são rápidos e potencialmente graves. A Climate Central identifica um conjunto de consequências diretas: desidratação acelerada, problemas cardiovasculares e respiratórios, exaustão pelo calor, insolação e, nos casos mais graves, morte.
O relatório estima que o calor extremo provocou mais de 250 mil mortes a nível global desde 2000, tornando-o um dos perigos climáticos mais mortíferos do mundo. Em Portugal, o INEM registou mais de 6 mil chamadas adicionais em junho face a 2025 devido ao calor, sinal de que os efeitos do calor húmido perigoso na saúde pública são cada vez mais visíveis também no nosso país.
Os grupos mais vulneráveis são os idosos, as crianças, as pessoas com doenças crónicas cardiovasculares ou respiratórias e os trabalhadores ao ar livre. O calor húmido perigoso afeta no entanto também pessoas saudáveis que não reconhecem os sinais de alarme a tempo. Saber reconhecer os sinais de alerta de uma onda de calor e o que fazer pode ser determinante.
Por que são as alterações climáticas a causa principal
A novidade central do relatório é a atribuição de responsabilidade. A análise conclui que as alterações climáticas provocadas pela atividade humana são já o principal fator do calor húmido perigoso, contribuindo para quase dois terços de todos os dias deste tipo registados em todo o mundo.
A lógica é direta: as emissões de gases com efeito de estufa aumentam a temperatura média global, o que intensifica a evaporação dos oceanos e de outras superfícies de água, aumentando a humidade do ar. O resultado é um ciclo que se reforça a si próprio: mais calor gera mais humidade, e mais humidade torna o calor húmido perigoso ainda mais frequente e intenso.
A vaga de calor que atingiu a Europa mostrou de forma concreta as consequências das alterações climáticas, incluindo apagões em França por sobrecarga das redes elétricas e até paragem de uma central nuclear francesa por impossibilidade de arrefecimento. Além disso, a possibilidade de regresso do El Niño em 2026 ameaça ainda novos recordes de calor.
As zonas mais afetadas e o risco para Portugal
As regiões do mundo mais atingidas pelo calor húmido perigoso são as que ficam numa faixa acima do equador, incluindo o sul e sudeste asiático, África subsaariana, América Central e partes do Médio Oriente. São também as regiões onde vivem as populações mais vulneráveis e com menos recursos para se proteger.
No caso de Portugal, o relatório não prevê que se atinjam valores de calor húmido perigoso extremo como os registados nas zonas tropicais. Mas os autores avisam que a combinação de calor e humidade pode ainda assim representar riscos significativos para a saúde, especialmente das populações mais vulneráveis. Quase metade das crianças do mundo está exposta a pelo menos três ameaças climáticas, e quase 260 milhões de crianças já interromperam a escola por conflitos ou clima.
Portugal aprovou este ano uma Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, passo reconhecido como necessário, mas ainda insuficiente face à velocidade das mudanças. O Dia Mundial do Ambiente de 2026 teve nas alterações climáticas o seu tema central.
O que podemos fazer individualmente
A prevenção começa pelo conhecimento. Em dias de calor húmido perigoso, mesmo quando a temperatura não parece extrema, a humidade pode tornar o ambiente perigoso. Manter-se hidratado, evitar exposição prolongada ao sol nas horas de maior calor, preferir alimentos que ajudam o corpo a manter-se fresco e reconhecer os primeiros sinais de exaustão pelo calor são medidas simples que podem fazer uma diferença real.
O calor húmido perigoso não é um problema do futuro. É um problema do presente, que se agrava a cada ano. E os dados mostram que, sem reduções significativas nas emissões de carbono, a tendência é a de continuar a piorar.