Entre-os-Rios: O luto de 25 anos que o Anjo de Portugal guarda

A tragédia de Entre-os-Rios completa 25 anos. Conheça a história das famílias que ainda rezam junto ao Anjo de Portugal e a cronologia do desastre que parou o País.

Entre-os-Rios: O luto de 25 anos que o Anjo de Portugal guarda

Passaram-se 25 anos, mas o tempo parece ter estagnado nas margens de Castelo de Paiva. O barulho das águas do Douro, que naquela noite de março de 2001 foi sinónimo de morte, é hoje o pano de fundo de uma devoção silenciosa. Junto ao monumento Anjo de Portugal, a memória das 59 vítimas de Entre-os-Rios continua viva através de gestos que se repetem mês após mês.

Atualmente, restam apenas duas famílias que cumprem o ritual de rezar o terço no local. Arlindo Lopes é um dos rostos desta resistência ao esquecimento. Perdeu o irmão, a cunhada e um sobrinho de apenas quatro anos. Para ele, as flores frescas e as velas acesas na pequena capela sob a estátua de bronze são a única forma de manter o vínculo com quem o rio levou e nunca devolveu.

A cronologia da tragédia

O colapso da ponte Hintze Ribeiro não foi apenas um acidente geológico ou técnico. Foi um trauma nacional que mudou a política e a segurança rodoviária em Portugal. Recorde os momentos fundamentais:

4 de março de 2001 (21h10): Sob chuva intensa e um caudal histórico, o quarto pilar da ponte cede. Um autocarro com 53 passageiros e três automóveis ligeiros caem no rio douro.
5 de março de 2001: O então ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, apresenta a demissão imediata. Assume a responsabilidade política com a frase que ficaria para a história: “A culpa não pode morrer solteira”.
Março a maio de 2001: As operações de busca mobilizam meios sem precedentes. Apenas 23 corpos são recuperados, alguns na costa da Galiza, a mais de 200 quilómetros de distância. Trinta e seis vítimas nunca foram encontradas.
Janeiro de 2003: É inaugurado o Anjo de Portugal, memorial com 12 metros de altura que contém o nome de todos os falecidos.
2006 a 2008: O processo judicial termina sem condenações criminais para os técnicos envolvidos. O Estado assume o pagamento de indemnizações às famílias através de um acordo extrajudicial histórico conduzido pelo provedor de justiça.

O vazio das casas de Castelo de Paiva

A maioria das vítimas residia em Castelo de Paiva e regressava de uma excursão para ver as amendoeiras em flor. O impacto social foi devastador. Freguesias inteiras ficaram em choque e, ainda hoje, o sentimento de injustiça perdura. A lentidão da Justiça e a ausência de culpados deixaram uma ferida aberta que nem as novas pontes conseguiram sarar.

Rosa Rodrigues, de 64 anos, é outra das presenças assíduas no memorial. Reza o terço pelo filho que morreu e que, pouco antes do acidente, lhe tinha pedido para rezarem juntos. Para estas mães e irmãos, o Anjo de Portugal não é apenas uma estátua. É o local de repouso espiritual para corpos que o rio nunca libertou.

Casos semelhantes de queda de estruturas

A queda da ponte de Entre-os-Rios é frequentemente comparada a outros desastres internacionais devido às falhas de manutenção e ao elevado número de vítimas:

Ponte Morandi (Itália): Em 2018, o desabamento em Génova causou 43 mortos, reavivando o debate sobre a fiscalização de infraestruturas na Europa.
Ponte Francis Scott Key (EUA): Em 2024, o embate de um navio derrubou a estrutura em Baltimore, demonstrando a vulnerabilidade de ligações vitais.
Viaduto de Calcutá (Índia): Em 2016, uma estrutura em construção colapsou sobre uma zona residencial, provocando dezenas de vítimas.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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